domingo, fevereiro 08, 2009

O espaço que nos resta

A tarde, em tão poucas palavras, atravessada
no fígado. Miradouros, pequenos bancos
de pedra, um olhar no declive que seguia
até ao Tejo e um desses gestos
que nunca mais acaba.
Parei junto à escola a ouvir aquele fragor
que por mais anos que passem
não deixa de ser como eu o lembro.
Depois desci pela linha do eléctrico,
e almocei no Ali, esse que é o melhor kebab
de Lisboa. Fui fazendo a digestão,
entrando e saíndo de lojas sem ver nada,
antes de recolher a um café
onde tudo o que vi foi uma mulher.

Estivemos a sós em duas mesas chegadas,
enquanto eu lia Heiner Müller e ela
tudo o que tinha a ver com teatro
e cinema no ípsilon. Por uma ou outra vez
inclinei-me pedindo que reparasse em mim,
mas ainda não estava no ponto.
Depois do empregado ir e vir mais umas
vezes lá se virou com a voz ardida
de whisky e um acento de pro-
vocação que nos levou para fora dali.

Tinha um sítio não muito longe e eu segui-a
menos por vontade do que como quem
se deixa ir. Chegámos e ela fez-me acordar
com a mão que me pôs na parte de trás da cabeça,
o desejo a sombrear-lhe o rosto e a boca em jeito
de súplica, enquanto eu queria
uma razão para recuar.

Não encontrei. Entretanto foi tirando a roupa,
pôs-se a brincar em pose de cristo rei,
dizia umas banalidades
salvíficas, e eu só reparava nos ombros
pequeninos, as ancas e os joelhos depois, a crua nudez
daquelas abusáveis linhas, esboço de nada,
esperando que eu me dispusesse
ao déjà vu, ou a sensação de um corpo
sucedendo à desolação nos versos
dos últimos meses.

Mais uma aspirante a actriz (pelo que vim a saber
mais tarde) tropeçando na cama de quem
soubesse bater palmas. Tem graça
como me habituei
ao quase famoso desespero que vem subindo
ao palco destas tão comuns desilusões
no final de mais um dia.

Não devemos ter ido além de um
quarto de hora entre aliterações, hipérboles,
suor e enfim um orgasmo envergonhado
da parte dela. Eu já não fui a tempo.
Ficámos por um bocado
ainda próximos, despenteados,
a olharmo-nos já depois dos estragos, meio tristes,

meio arrependidos – nos lençóis o espaço
que vai do Nada ao Pouco, e nós aí,
presas fáceis do murcho encanto que então
se sente. Nas minhas veias tocava em dó menor
um nocturno de Chopin (nº1, op. 48).
Já não lhe perguntei, nem quis saber,
que espécie de música lhe doía a ela.

2 comentários:

bruno vilar disse...

Grande, grande poema. A mim dói-me
Clair de Lune do Debussy, a ela deve
doer-lhe o Freak Folk do Outro.

É isto que tenho tentado frustrada e insistentemente fazer.

Parabéns, Diogo.

marta (doavesso) disse...

lindíssimo poema.
beijo