domingo, fevereiro 15, 2009

habitámos por três meses a mesma casa desconexa
depois avançou sobre nós o ombro, o esquerdo, o do silêncio

ficámo-nos pela porta

a minha solidão recente em Heidelberg e na penumbra
vista de olhos abertos como provas de revisão para as asas
as últimas
para
dizer
o voo impossível

mais três meses entre cidades-dormitório
pernoitando aqui e ali apanhando comboios e morcegos
procurando chegar a algum lado

trago vistas muitas madrugadas
as muitas faces da moeda e as duas faces da moeda
no ritmo lento da cidade ensonada
agora vou mesmo apanhar aquele último avião

a minha solidão em Heidelberg descendo pela penumbra
três meses desconexos em casa
por três vezes a ausência batendo-me à porta
tacteando-me escuro
pelos ombros na penumbra

surpreendi ontem os nós dos dedos no gesto vago da indecisão
distraídos para sempre diante do portão

palavras feitas há três dias apodrecendo junto ao leite de mais perto a boca da raiz remoendo o vulto do meu braço, os passos no meu braço, o direito...

pensei que depois de ter dito isto eu

eu devia servir para alguma coisa
para alguma espécie de coisa
uma vez que o corpo conserva a memória dos gestos
e o rumor do silêncio na cidade
e os pequenos esgares que estranhos lançam uns aos outros procurando a palavra já perdida galgando por entre carris
num regresso desajeitado aos dormitórios
onde o tempo lhes trepa pelas costas

a memória possível acontece algures e não regressa mais
é o vidro partido

agora que o conheço, o meu desespero é último

(primeira versão no blogue do mathew)

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