quarta-feira, fevereiro 18, 2009

Acompanhantes

Apenas um poderoso cadáver que sonhasse
nos poderia criar desta maneira.

Francisco Brines

Foi tudo muito sério, cheio de juras
que agora não quero recordar, e não sei
até que horas errámos, vagueantes sombras
de um desejo tão experimentado.
Levavas-nos pelos atalhos que conhecias,
tinhas já uma lista de coisas que não
podíamos dizer e corrigias
os meus versos até todos serem teus.
Tantas dessas noites, na cama, já me virava
para a madrugada em que acordei
sobre palavras destroçadas, gastas ou vazias,
ferido por uma infecção de luz
que rompia através das janelas
para me encontrar sozinho.
Podia ter sido ontem, mas deixei
passarem-se uns meses antes
de recuperar a voz e,
nesta pronúncia de sangue, ver a boca
estoirada numa frase tão curta.

Num dos cafés em que não chegaste
a entrar foi onde tive tempo
para observar esse meio-corpo entregue
a uma qualquer inclinação, envelhecido,
morrendo nos seus próprios braços.
E foi isso o que tentei escrever antes
de se tornar claro que terias de o ver
por ti mesma.
Ancorado, aquele rosto entre vírgulas
– garrafas é óbvio, e um cinzeiro também (estes
cenários não se inventam) –,
os olhos drogados nas suas distracções,
sorviam os curtos espaços de luz
que percorriam a divisão enquanto eu
vigiava a sua sede. Sem o saber então,
nessa tristeza, entendi melhor que nunca
porque foi que mentimos e o que tentámos
esconder. A carne inquieta dos dias,
depois de ter oferecido alguma luta,
acabaria por assentar ali mesmo,
nos ossos do tédio.

Hoje acatamos de modos diversos
um destino que quer dizer
sempre só uma coisa.
Inundamos de canções o silêncio,
mal doseados refrões, e voltamos mais cedo
do que esperávamos
aos enganos mais acessíveis,
carícias duvidosas, engates e outros
compromissos, até não nos restar
nenhum dos fogos que ateámos
na infância.

Tornei-me o hábito de estar cá,
ir e sair da cama, sozinho, seja como for.
Andar por aí e calar-me, assim como deixo
esta folha a ouvir
a mansa desconversa das horas,
a pedir sono e esquecimento. Nisto
vou lavando as minhas mãos, e sei
que tu me poderás mostrar
que a alternativa teria sido pior.

7 comentários:

bruno vilar disse...

Interessante. No entanto, creio que os poemas mais recentes padecem de um negrume tautológico : gostaria de ler uma lâmina de esperança, nem que uma só vez.

Sobre a minha desactualização, nada a apontar. Tens toda a legitimidade para fazer pores e dispores do que quiseres no teu Blogue.

Sem mais de momento, Bruno.

Diogo Vaz Pinto disse...

De facto, até podia haver um blogue onde os visitantes pudessem encomendar poemas. Desde o tema e abordagem até às questões mais formais e de estilo.

É coisa para propor a um poeta Com Jeito Para o Negócio, não falta por aí exemplos.

Artur Corvelo disse...

chefe, era um poema e uma nata

Diogo Vaz Pinto disse...

Só temos um bolinho de bacalhau e já está aí há uns dias.

Artur Corvelo disse...

então vou ter de passar sem a nata
(esta está muito boa, sou tão engraçado)

bruno vilar disse...

Não te encomendei seja o que for. Manifestei um desejo. Se não aceitas
observações contrárias ao que queres ouvir, o problema é teu.

Artur Corvelo disse...

"Hoje acatamos de modos diversos
um destino que quer dizer
sempre só uma coisa.
Inundamos de canções o silêncio,
mal doseados refrões, e voltamos mais cedo
do que esperávamos
aos enganos mais acessíveis,
carícias duvidosas, engates e outros
compromissos, até não nos restar
nenhum dos fogos que ateámos
na infância."

já agora, tinha-me esquecido, o poema está muito bom.