Não sei o que foi hoje, se um descanso
ameno no inverno ou
se a terna velhice deste céu a empurrar-me
pelas ruas de sempre, disperso, um gosto
menos pela vida que pela paródia
de dejectos que ainda me comove.
A gramática ordinária dos lugares
que vão servir-nos pelo menos
até às duas da manhã, uma narrativa
pousada sobre os cotovelos, vigiando
os primeiros, mais suaves passos
da noite, o azar e a sorte de quem possa
aparecer e despertar-nos curiosidade.
Não há muito, houve uma mulher
nem feia nem bonita, estudando
as suas fracas opções, tímida
prostituta que se acercando quis
saber se eu tinha horas ou tesão
para daqui a um bocado. Eram vinte e uma
e dezasseis no meu relógio, calculei
se seria suficiente o que tinha nos bolsos
– dificilmente. Talvez até desse
para um desarranjo mais breve, mas nada
que fizesse as molas num refúgio pago à hora
cantar para nós, sossegando a história
de amor que não nos quis.
Beijinhos, é pena, as putas não dão.
Ou pedia-lhe que se sentasse, pagava-lhe
uns adocicados golpes de álcool e podíamos
ficar aqui mesmo, trocar cuspo e imo-
deradas coincidências que nos aproximassem
como a um casal de namorados. Por vezes
sinto falta dessa outra solidão.
Na realidade ainda se sentou mas não quis
saber mais nada. Houve alguém que depois
a levou para longe destes versos, onde
houvesse acção a desenrolar-se. Fiquei eu
e uns tipos bebendo, dedos tamborilando no tampo
da mesa, este piano mudo. A melodia derramada
no chão e nós meio tocados pela tristeza
uns dos outros – um vazio que transbordou
dos nossos copos.
1 comentário:
A melodia derramada
no chão e nós meio tocados pela tristeza
uns dos outros – um vazio que transbordou
dos nossos copos.
"The piano has been drinking, not me."
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