quarta-feira, dezembro 03, 2008

Varanda II

Oração profana

Pela arte, pela beleza, pela dificuldade
em encontrar um táxi nas noites de verão,
o que, muitas vezes, nos obrigou a caminhar
à velocidade do luar, prolongando a ilusão de felicidade.
Por certas esplanadas entrevistas em filmes
aos quais chegamos já com as luzes apagadas.
Por estantes esquecidas em apartamentos,
forrados com pinturas abstractas,
plenos de memórias que nunca iremos ler,
devido à falta nas redondezas de
jardins sombreados por tílias e aloendros.

Pelo dicionário, cuja página com
a palavra adeus foi arrancada.
Pelos dvds de clássicos de hollywood,
revistos do fundo de uma alegria que
não admitia findar.
Pelos cds de cantores de ópera,
empilhados no chão do quarto.
Pelas palavras que aprendi da tua boca,
ó solidão, dama elegantíssima.
Pelos amores impossíveis de esquecer a meio da tarde.

Por um telefonema
capaz de soltar as amarras do corpo.
Pela insensatez dos teus olhos.
Pela devastação que um beijo provoca.
Pela chave mestra que permite entrar
em todos os quartos de hotel.

Pelo deslumbramento que é a noite
vista a partir da varanda
do décimo primeiro andar.
Pelos poemas cheios de indicações
impuras.

- Jorge Gomes Miranda
RESGATE, Fundação Serralves, 2008


NOTA:
Este livro é uma espécie de ressurreição em sentidos muito variados. A par de TÊMPORAS DA CINZA (A.M. Pires Cabral) e COMÉRCIO TRADICIONAL (Vítor Nogueira) - as melhores leituras que fiz entre o que se publicou de poesia este ano.

2 comentários:

bruno vilar disse...

Podes informar-me de como posso
adquirir o livro do Jorge Gomes Miranda?

Obrigado

Diogo Vaz Pinto disse...

Não sei. Recebi-o de um amigo. Mas mexe-te, fala para a Fundação de Serralves.