What am I after all but a child, pleas'd with the sound of my own name? repeating it over and over;I stand apart to hear - it never tires me.To you your name also;Did you think there was nothing but two or three pronunciations
in the sound of your name?
Walt Whitman
Já não ia ao cinema a sós há muito tempo
mas esta semana fui, duas vezes, pior,
fui ver o mesmo filme – um que está aí
para adolescentes. Fui assim como quem sai
pisando flores e fica
preso. Não sei explicar melhor.
E não quero ser mais explícito,
digamos que salto dentro e fora
dos afectos mais violentos, de acordo
com o meu ciclo menstrual. E se sou rapaz
isso só torna mais difícil explicar-vos
estas merdas. Tenho seguramente um corpo desses
mais habituado às meias tintas desta prosa tonta,
derreada, um corpo que estremece e
não sabe o que fazer
se lhe dói uma visão distante, um sinal
de terrível beleza que vem e se senta
entre os seus joelhos, pedindo festas.
Sofro de má circulação, é um problema comum.
Tenho as mãos demasiado frias, mesmo por isso
prefiro dar-lhes versos, gosto de levar as coisas
pela sombra, com calma e bem devagar.
Levanto (às vezes e só um pouco) esta anti-épica
cabeça e observo-as: penélopes cingindo-se ao guião
enquanto varrem graciosamente
as arestas de algum jardim. Já não é
bem um filme, mas assisto sem fazer barulho.
Deixo-me estar a amadurecer palavras nalguma folha,
enquanto levo à boca não pipocas, mas rijos
gomos de tangerinas sem-sabor, e vejo
que a elas lhes vêm comer às mãos
pássaros com uma sede de frutos mais doces.
Agora e antes que fique tarde, se me permitem,
queria deixar um recado à senhora
aí ao fundo, que está a achar isto tudo muito parvo:
– pouco me importa que aqui as coisas peguem
mal umas com as outras, isto tudo é jogo e passatempo,
linguagem e solidão experimental, se preferir.
Aliás se me está a ler é porque também
tem pouco mais para fazer.
Ninguém há-de ter nada contra a poesia,
mesmo a dos outros. A gente lê-se, é normal,
até certo grau qualquer monstro
gosta de companhia – toda a gente sabe
que é assim. O Assis Pacheco diz que acha mais útil
a limpeza a seco, mas eu tenho empregada
e talvez só por isso não pense nesses termos.
Estou com dores de miúdo enamorado,
mas não tenho em quem pendurar
esta coisa. Deixo aqui e vou ficar à espera que o vento
(depois do fogo) espalhe estas cinzas,
e já me dou por contente que desta vez
não tenha passado por perto alguém
que se lembrasse de apanhar isto do chão,
tornando o processo mais complicado.
Tecnicamente está tudo certo, o tédio
há-de voltar mais cedo que tarde
para ver soltar-se da sua bainha novas
e breves, desinteressantes recompensas. E é assim,
honestamente não podíamos esperar outra coisa.
O tecto por cá continua muito baixo, Cesariny.
No fundo é provável que nos falte talento
para tantos dias sem nada, destes dolorosamente justos
à pele. Mas cabe-nos chorar as memórias
e sentimentos do nosso tempo. Se é pouco
é pouco, e afinal talvez disso
nem tenhamos grande culpa.
Há uns dias um amigo deu-me uma generosa caixa
das de lápis de cor, e eu não lho levei a mal,
até agradeci. Entretanto a firma Melancolia & Associados
já havia montado uns escritórios novos
aqui por cima. Percebi a indicação, aliás,
nem duvido que já ande por cá há tempo demais,
com isso em mente peço outra coisa à imaginação,
uma praça de táxis no meio da estrofe, ou
uma estação de comboios – não interessa o que seja,
contando que parta para bem longe disto.
Mas estas obras públicas levam o seu tempo.
Paciência. Toda a gente sabe que um rapaz
que se mete a dizer as coisas assim,
de cabeça,
há-de ter alguma canção memorável
a despedir-se dele muitos decibéis acima
do recomendável… cada nota a adocicar-lhe
a língua, reciclando-lhe a respiração e o ritmo
num doce esvaimento, alagando as ruas
onde parou de crescer, e em que por fim se agarrou
ao último baloiço, como uma criança transtornada
segurando nas mãos a cabeça perdida
de um adulto.
Era só isto. E já sabem, enquanto não me vier
nada de novo, a gente vai-se vendo por aí.
3 comentários:
Vamo-nos vendo por aqui, espreitando palavras como de janelas, a janela do computador. É o que há, e o dia lá fora.
Um amigo meu escreve que "houve um tempo em que as pessoas faziam coisas”. Talvez o tempo seja agora.
O teu melhor amigo tem sido há já alguns meses uma boa surpresa. Assim como a Criatura, que descobri pela Trama do Rato.
Outra coisa: não me esqueci das tuas críticas e da tua vontade de "criar", a propósito da ida iuris grafia de há 3 anos. Nunca te cheguei a agradecer por isso. Com um abraço,
Berhan
Terei mais que fazer, talvez, mas não tenho tido muito melhor poesia para ler (embora este, enfim...:))
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