domingo, dezembro 07, 2008

Vestidos de noiva

Ontem estive o dia todo no meu vestido de noiva, na cozinha
junto ao fogão, a preparar bolos e tartes
com os teus frutos predilectos, e tu sem dizeres se podias vir.
Depois, claro, lembrei-me que nos conhecíamos mal,
apenas de alguns poemas em que partilhámos
cigarros confusos, lembrei-me que nem nos chegámos
a tratar por tu e mesmo os gatos cá de casa também
não se chegavam muito a ti, nem nunca te pediam festas.
E esse era só mais um entre vários sinais a que
devia ter dado outra importância.

Dói-me aqui, aqui e aqui também. Sim, mesmo aí sobre
as linhas onde a escrita se borra de vazios,
referências e envios desastrados
para o trabalho de autores com mais perspectiva.
A mim basta-me algum acaso estúpido
e deito-me nisto, sem que me canse muito. Não uso sequer
as quantidades recomendadas de aditivos líricos,
ou corantes e conservantes. Aqui não há uma sombra a cair
para o futuro, nem um baú ou uma arca, tudo acabará bem
num saco de plástico, enquanto alguém
não dá uma volta à casa, atirando com isto para o lixo.
E um gajo não tem que se queixar destas coisas
– como diz o Leminski, depois de grandes planos
e ideais, vamos dar por nós sem vontade
nem muita paciência, apenas pondo sal
nesta sopa rala que mal vai dar para dois.

E assim é, desistindo do enorme desejo
de darmos uma bofetada no gosto
do público, só já não lhe fazemos festas. Tocamos-lhe
à campainha e fugimos, atiramos balões de água
quando passa lá em baixo, telefonamos para o serviço
de urgência e dizemos que nos vamos matar
ou que nos veio o período e incendiámos uma floresta...
Tudo brincadeiras de putos que trocaram
pistolas de plástico por palavras.

Hoje aproveito que anda tudo aí encostado
às montras do natal, e também vou espreitar, apanhar
sustos, ver as meninas rente ao tédio, coladas
a sorrisos nos estabelecimentos comerciais
dos nossos domingos. Elas próprias vêm e puxam conversa,
oferecem-nos instruções tão válidas quanto quaisquer
das noções a que aqui prestamos culto,
e articulam a variada gama de cosméticos,
artigos de higiene e revoluções no tratamento
de não-sei-o-quê, quase nos animam e nos
levam a querermos cheirar bem e parecermos bonitos.
Ficamos à espera que o seu turno acabe, levamo-las
pelo braço, embriagamo-las (mais por meio de vinhos
do que com versos espontâneos) afiamo-nos na pele
e no perfume delas, arrotamos-lhes docemente ao ouvido
e elas (que queridas) riem-se tanto.

Não é fácil saltar para conclusões, mas
o amor deve ser uma coisa já aqui ao lado,
com um corpo conveniente, assim, à espera
da primeira mão que lhe cale o precipício
entre os lábios ou as pernas.

E pronto, vamos indo que a sopa entretanto esfriou
e daqui a nada passa o episódio da novela
que ela não pode perder, e a mim até me fica tempo
para dobrar isto direitinho
e arrumar junto com o resto, no saco onde trago os dias.

2 comentários:

dama disse...

Excepto por "referências e envios desastrados
para o trabalho de autores com mais perspectiva." é difícil ver porquê as duas primeiras estrofes estão ligadas às restantes. Mas a penúltima é um achado!

Daniel Ferreira disse...

há que retirar o chapéu!