Fizemos os três a estação de Orsay ontem à tarde, exactamente
quatro minutos e alguns segundos em todos os relógios.
Uma corrida, com ou sem calças à boca-de-sino, vale menos
se entrar para o livro de records: o relativismo deve ser evitado
e de qualquer modo não é a velocidade que nos anima.
Ao contrário, por culpa dela só trago comigo o início e o fim
da corrida, entre eles, nada senão uma mancha esfumada:
intelectuais na reserva, guardas no caminho para a casa de banho,
multidões apressadas ou a roer as unhas, em trânsito ou em espera.
São fantasmas de uma estação de comboios há muito desactivada,
estou certo disso e apertei-te com mais força a mão para que o visses,
só não sei quantos deles serão também estações desactivadas
aonde ainda vão outros fantasmas de pontualidade calvinista
e prospecto dos caminhos de ferro debaixo do braço.
Agora que estacionamos na entrada a resfolegar não sobra muito
mais do que a urgência de inventar um grito selvático que se liberte
em todos os telhados do mundo. Ou pelo menos num projector.
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