O melhor é nunca mais te ver.
O teu corpo ausente de vida é como um
espelho, tão irresistível é a tendência
de o ver como reflexo meu, o que produz
uma estranheza biológica à impressão
de que, por enquanto, permaneço vivo.
Não me peças, Eurídice, que te procure
entre os que estão mortos, sem que por
uma vez só vez se tenham manifestado
pouco confortáveis com isso.
Aqueles que partem não invocam asas
a crescer nas costas, nunca regressam e,
se por acaso o fazem, surgem desde o chão,
como fantasmas indesejados cuja dor é fria
como o mármore junto ao qual rastejam.
A Ceres devem os campos as papoilas,
essa flor de sonho manchada o teu sangue,
suave rio que à lâmina escura da morte
ofereceu o rosto mais avesso ao esquecimento.
O melhor é mesmo nunca mais te ver
ainda que a ver-te eternamente
e todos me confirmam ser essa a forma
mais higiénica de permanecer melancólico
em frente às vidraças onde desenho
pequenas aves horizontais no
manto cinzento da condensação.
A morte é um curso de água que nasce
na recordação dos teus cabelos de ónix
que, como serpentes, assaltam
os lugares em que apenas estás ausente.
Eurídice, não regresses.
Se no caule das trepadeiras agora
ascendesses à terra dos vivos o violento
quebrar dos teus ossos seria suficiente
para nos abater o mesmíssimo coração.
O teu corpo deitado sobre pedras
esculpidas na forma dos mais belos
animais caçados em Damasco recordaria
aos nossos antepassados o quanto a morte
e o sono se assemelham, tal como os
gémeos nascidos de Leda.
Eurídice que dançavas na relva fresca
com os duendes que crescem escondidos
nas fontes, não regresses a esta terra
agora que te recolhe a sombra
de um deus melhor que os homens.
O melhor é nunca mais te ver
e ver-te eternamente na memória,
ainda que isso não seja suficiente
para sentir os lábios daquela que
o chão a seus pés acabou de engolir.
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