terça-feira, novembro 25, 2008

Biografia

para os meus pais

I
(O sangue)


Sou bisneto de um tal Ishmael Veilchenduf,
judeu, que em tempos negociou peles de animais exóticos
e bibelots de cristal algures nas margens do Vístula,
privando ocasionalmente com a alta sociedade de Varsóvia.
Diz-se que deu à primeira filha o nome dos sonhos que
ficaram por cumprir, quebrando com isso uma linhagem
milenar de princesas de sangue negro, o que nunca foi
verdadeiramente perdoado pelas mulheres da minha família,
habituadas a quase tudo desde que não envolvesse um pouco de decepção.
A minha bisavó, conhecida por Mary B no seus tempos de prostituta,
nunca voltou a observar-se ao espelho depois de casada,
talvez por medo aos demónios ou simplesmente a ver-se demasiado gorda.
Mas o meu sangue andou por bordéis no norte da europa e participou
activamente na compra e venda de carne tão branca que no
passado teria sido considerada aristocrática e enferma.
A minha irmã, de nome grego e impuro, escolheu ser vegetariana
em forma de protesto para com a ascendência de judeus
bárbaros através das mãos, obcecados em sangrar
pequenos animais peludos até à última gota.
Tem, tal como eu, os olhos verdes e toda a espécie
de amor que eles podem conter, herdados de uma mulher
que não cantava suficientemente bem como para enganar
a vodka e outras certezas num café perto da Syrenka.
O meu bisavô Ishmael apreciava várias espécies de miudezas,
grelhadas ou fritas em azeite virgem importado de Espanha
pela Sociedade Guzmán&Hijos com domicílio social em Barcelona.
Talvez por isso eu tenha o cabelo desta cor que vem de dentro,
como o sangue que me escorre dos lábios em noites de violência.
Sou excelente como carnívoro, sustentado a músculos, tendões e,
com um pouco de sorte, corações de animais que a minha raça
já chegou a considerar como irmãos nos tempos de C. e outros idólatras.
Um dia vesti um casaco de zibelina da minha avó Esther
e exagerei na pintura dos lábios com o ciclo de sangue
da minha irmã mais nova, detentora de bonecas
associadas à decadência erótica dos nossos tempos.
Atravessei a cidade de uma ponta a outra só parando para comprar
pão de mistura e um volume das Obras Completas de Sully Prudhomme
para curar a febre do Nobel contraída com um século de atraso.
Eu caminhei lado a lado com Enoch. Meus Senhores, foi isso que consegui
em vez de me sentar na cadeira do meu pai a escrever um poema
sobre aquilo que Pilatus disse aos judeus formalistas no lugar em
que os inimigos de César eram crucificados.


II
(A cinza)


É tradição entre os nossos acreditar que para lá do
oceano fica uma terra que nos foi prometida,
onde um rei pode ser encontrado a caçar animais
cujas peles brilham mais que o exército de Tito
a marchar passo a passo sobre o deserto.
Não sei que nome lhe dar, não sou Amerigo Vespucci
ou talvez ainda nem sequer o tenha, talvez sejas só tu
a tentar convencer-me a escrever mais um poema
sobre uma frase marcante daqueles livros devidamente
encadernados na nossa pele. Não importa.
O tempo flui como o tráfego na cidade com que em tempos
sonhámos e todos nós, mais tarde ou mais cedo, teremos a felicidade
de encontrar uma terra santa para deitar o corpo e morrer.
Das aufgeschriebene Vaterland. Não importa.
Todos nós construímos jardins inconstantes à volta da alma,
já que nos é impossível procurar neles um vento de Novembro
agora que dirigimos o olhar a leste, à procura de um coração
totalmente negro numa esplanada em Hierosolyma.
Lusignan, senhor do Chipre a cavalo, abandonou
estas paragens faz já tanto tempo, nos dias que antecederam
a queda de São João de Acre ou outra cidade santa qualquer.
Desde então, o meu sangue é preto, herança genética da tinta
que te ficou agarrada às unhas ao ensinar ao nossos antepassados
que a fé é tão duvidosa quanto o altruísmo de Rudolf Kastner.
Mesmo assim trago na boca as palavras do livro da lei,
apesar de ter havido tempos em que me furtei a meditá-las
dia e noite. Hoje sei que lei é a casa do ser e nesta habitação
do ser mora um homem cujo olhar foi atravessado
por um relâmpago. O meu nunca foi.
Senhor, já não sinto o pulso ao meu sangue, os seus lábios estão
pálidos e quietos como os de um morto em pleno convés.
Senhor, já não sinto o pulso ao meu sangue e era tão imenso meu sonho,
mas os seus lábios estão pálidos e quietos.

4 comentários:

Artur Corvelo disse...

"Não sei que nome lhe dar, não sou Amerigo Vespucci
ou talvez ainda nem sequer o tenha, talvez sejas só tu
a tentar convencer-me a escrever mais um poema
sobre uma frase marcante daqueles livros devidamente
encadernados na nossa pele. Não importa.
O tempo flui como o tráfego na cidade com que em tempos
sonhámos e todos nós, mais tarde ou mais cedo, teremos a felicidade
de encontrar uma terra santa para deitar o corpo e morrer."

só não gosto da referência ao americo prepucio, de resto isto (o pema no geral, estes versos em particular) é delicioso

David Teles Pereira disse...

Tem lá o senhor culpa de ter o nome a rimar com lúcio e mercucio e coisas assim.

Daniel Abrunheiro disse...

A poesia deste homem é um caso sério.

jcb disse...

Que mais dizer? Belíssimo poema.