quarta-feira, setembro 10, 2008

You had such a vision of the street
as the street hardly understands.

T.S. Eliot


Sou o rapaz vulgar, moro na porta ao lado
e enquanto a estupidez ganha o mundo,
sou tão filho da tristeza quanto tu.
As palavras que te estendo são o troco
para o teu silêncio. Não sabes como to agradeço.
Assim perdoa-me certas nuances,
estridências e abalos, o que procuro
não está em mim e ainda demora.

Adianto-me no sonambulismo das ruas
noite por noite, e a toda a hora
nascem e morrem-me criaturas na cabeça.
Habitualmente abrem os olhos, fitam-se
num momento de vaidade ao espelho
e pouco depois desfalecem de causas naturais.
Algumas, porém, pernoitam
brandindo cartazes, noções imperfeitas, fracassos de luz.
Já na manhã seguinte vejo como desanimaram
– nem um bilhete, só um limpo suicídio.

No fim da linha o que espero é absolver o coração,
atordoá-lo com sedativos ou chutá-lo para longe.
Continua a marcar um ritmo desnecessário
nesta terra de desperdício que faz de mim servente
– moço de recados ridículos –, funcionário
dactilografando códigos e anúncios de liberdade,
revigorando uma fé suja à custa de deuses inconscientes
que ainda me caem das mangas.

Ah a puta da metafísica! Sou afinal
apenas outra máquina de escrever, batendo letra a letra,
soletrando o pesadelo, batendo e batendo
até o mecanismo encravar.

2 comentários:

blue disse...

gosto muito, Diogo.

Nuno Dempster disse...

Também eu, e neste e nos outros que li se comprova o que lhe disse sobre. Não foi amabalidade ou desculpa. Uma linguagem sem essas turvações do costume, não apenas deste século.