sexta-feira, setembro 05, 2008

Xerox, fala baixo, olha se te ouvem

Queixas-te, Xerox, a toda a hora, de que os críticos
não ouvem, não promovem os teus versos,
que não cedem às milícias de latão com que pretendes,
façanhudo, conquistar não sei que posto nas esferas
de um Parnaso imaginário. E clamas por justiça
nas esquinas, nas escadas dos palácios culturais,
encostado a colunatas de cartão; vais queixar-te
às redacções, insinuas um conluio de sumários
calculismos; chegas mesmo a invocar, como um pobre,
o direito que te assiste a um rendimento mínimo
de encómios por volume! Não percebes, fotocópia,
que se os críticos afastam, educados, o olhar
desses líricos despejos que publicas, isso apenas
indicia escandalosa protecção? Pensas tu que,
não te lendo, te maltratam; grande nabo me saíste.
Maltratado, meu Xerox, ficarias se te lessem.

- José Miguel Silva

1 comentário:

Nuno Dempster disse...

É o poeta português da sua geração de que mais gosto. Normalmente, isto sucede com todos os que não pertencem ao stablishment da nossa Betesga literária, quer sejam bons quer sejam maus, tanto dá.