Voltemos a isto, ao cálculo dos danos
na máquina do mundo, à impotência do riso
contra tudo o que não sabemos mudar:
a morte, o egoísmo, o levadiço coração
humano. Porque não há mais nada (ok,
há o amor – vai-te foder) e nos negócios
da razão o pessimismo é a moeda
do momento. Regressemos ao ruído,
à sombria comissão liquidatária
desta fábrica de trapos coloridos.
Se não há melhor emprego para a culpa
e os domingos custam dias a passar.
2.
Mas que resta para ver ou comentar
nesta feira pecuária, perguntas,
recordando como tudo já foi dito
vinte vezes por cabeça, e repetir
repetições é engodar ritualmente
a esperança. Mas o próprio silêncio
é uma pose, e bem pouco original.
De resto, quem da poesia colhe
o benefício dum lamento ou esconjuro,
tem direito à inestética dum «foda-se!»
sonoro quando a sanha do martelo
lhe desaba em pleno dedo. Que querias?
Que calasse o prejuízo na cordura
dum esgar arranjadinho, decoroso?
(Ou pior: que adubasse num sim-sim
de pechisbeque o subarbusto da penúria?)
Que diabo, mas será que só os ricos
é que podem vestir mal?
3.
Não sei que horas são no teu relógio.
No meu é cedo/tarde – está parado
há bem mais de vinte anos.
Não importa, pois as coisas vão e vêm,
e de novo se levanta o mês de Março
nesta era da ironia, com seus truques
estafados e promessas desfolhantes.
Juntamente, tudo passa e tudo volta,
mas diverso – só por isso, justamente,
tem piada estar aqui, abrir os olhos,
conferir ainda e sempre, na vitrina
da manhã, a produção da Primavera.
- José Miguel Silva
1 comentário:
mandar foder o mundo era algo que me aliviaria neste momento. já volto!
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