Tens estado aqui a desfolhar uma hora de retornos
enquanto lá em baixo, do fundo da rua, soa o assobio
de pífaro do amolador, o velhote que nos afia
as facas. A secretária a uns passos da janela
é um mundo quase sereno, debaixo de tinta,
nas gavetas emperradas, arrefece um vulcão
com tudo o que calaste. É natural que outra triste
polémica feita de vaidades desentendidas
só sirva para hastear de novo a bandeira
desta nossa pequena pátria.
Editores de mofo e sangue pisado – que diferença faria
se não nos lessem e se por isso nos deixássemos disto,
destes lugares ubíquos onde se inventa e por vezes
se escreve uma solidão não datada,
com todas as suas suspeições, agruras
e constrangimentos? A consciência por entre
as suas isenções líricas a favor de uma certa ética
vale muito pouco, no teu caso apenas fluí na extensão
de alguns cigarros que te morrem nos lábios.
Organizas na mesma estante dos livros e cd’s,
alguns frascos, cápsulas para o balanço das tardes,
para dores crónicas e secretas menstruações,
para dormir, para acordar e para também tu
teres como apreciar a extinção da espécie.
A noite virá daqui a nada deitar-se em ti.
Tens um encontro marcado e uma nota no bolso
para cigarros e bilhar, é a primavera da vida
e apesar das estrelas decadentes coladas no céu
aproveitas a liberdade condicional de ser teu um corpo
entre tantos outros. Vamos avançar aos encontrões
e deixar que a pobre luminosidade nos estreite
o caminho ou a perspectiva. Na pior das hipóteses
este terá sido só mais um dia, e tu só mais um deles.
2 comentários:
Um poema de mão firme, sólido e uno (quantas vezes a unidade de um poema mais extenso é débil e, pior, se notam subterfúgios formais para a conseguir?). Além disso, a música que se escuta ao dizê-lo.
muito bem diogo. em cheio.
Enviar um comentário