segunda-feira, novembro 26, 2007

Vontade de não partir

de um sítio para outro sítio
entre fusos horários o mais incompatíveis possível
o mundo não conhece uma versão diferente de si,
uma alternativa ou uma proposta decente -
a indecência agarra-se aos sapatos
e por tudo o que pisa o caminhante
já se contenta em ter o seu par,
a fidelidade de um bom par de sapatos,
mais que isso o caminhante não devia pedir

entre um lugar e o outro
eu não ganho ânimo pelas distâncias
não me converto à religião das viagens
e não tenho como mentir no regresso

se num lugar a vida parece
ser mais fácil
é apenas porque a morte
se vende mais barata

o abismo ainda nos fita
nos mesmos lugares de sempre,
seja na secção de congelados do ralphs
ou na do mini-preço

a terra aquece
e cada vez faz mais frio
dentro de nós

eu caminho com a mão sobre a testa
e vejo o meu horizonte cada vez mais interrompido
como uma colagem de velhos postais

depois sinto florir no meu peito
uma verdadeira reminiscência do passado:
sentado na toalha de praia
uma recordação de mim
menino
viajando
na vontade de não partir

essa mesma vontade
com que o mar se devolve à areia,
despreocupado das ideias emaranhadas
com que o futuro nos assalta

percebia no modo como o meu olhar
se arrebatava nas coisas calmas
que aquela única vela
rasgando a linha que parte
o mundo em dois
guardava ali o meu sonho
não no embalar desse barco
que arranjara uma função para o mar
mas em mim
com o meu olhar perdido
e a minha vontade quieta
apreciando a disfuncional alegria
com que o mundo
entre o ir e o vir
vai ficando.

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