sexta-feira, novembro 23, 2007

Memórias de uma Traição


Talvez só se possa contar uma história depois de estarem varridos os dias que lhe deram as linhas de onde se desprende a trama de sensações que nos envolveram. Meses mais tarde a poeira assenta e mesmo que não seja mais fácil descrever os detalhes que se tornam invisíveis com a distância para onde o tempo nos atira, não há dúvida que só assim nos podemos sentar e escrever um conto sobre aquilo que nos aconteceu.
Há uns dias tive uma conversa com alguém que me fez ver que as pessoas que perduram são aquelas que aprendem a conhecer os ventos. Não têm ambições demasiado próprias mas agarram-se àquilo que resiste ao tempo e aos processos de erosão. As pessoas que resistem traem. Faz parte da sua natureza, quase como um esquema de sobrevivência, e nem podem perceber os actos que cometem como mais do que actos necessários e, portanto, justificados.
As pessoas que não resistem são aquelas que estão de passagem, são aquelas que como o vento têm uma vontade mas não só uma vontade e uma força como um destino. Avançamos buscando um perfume, recolhemos os melhores odores que o caminho nos oferece mas por vezes a lista de ingredientes com os quais contamos acaba por ser apenas um reflexo da nossa ingenuidade. Não há receita para um verdadeiro projecto de futuro onde a união constítua a maior das forças. A união resultará sempre numa sopa de egoismos que levam ao fracasso.
Só o sonho contagia as pessoas e as junta na doença. Só o sonho. De resto o mundo volve nos contra-sensos de uma religião diária de mentiras e desonestidades de forma a proporcionar aos acólitos um ambiente parassocial. Porque no fundo poucos são os tristes que preferem estar tristes em reclusão.
Imaginem que eu vos digo que no meu conto de traição os traidores são um bando de covardes... Nada de novo não é? Mas não é a covardia aquilo que os distingue, na verdade talvez eles nem sejam tão invulgarmente covardes que mereçam uma atenção especial, mas se a merecem é porque afinal partilham uma forma rasteira de sonhar.
É dentro deste prenúncio que vos apresento a história de cinco animais de quinta, cinco animais que existem sem explicação mas com cinco vidas que não interessam para nada a não ser para quem perde com eles os seguintes parágrafos.
Primeiro faço as apresentações.
Estamos na quinta do senhor W, um homem desses silenciosos que os escritores inventam à pressa quando precisam de fechar um buraco numa história. É um quase velho, aliás, é um quase várias coisas porque na verdade ele não é nada em concreto, a não ser o dono da quinta onde os animais vivem. Mas como mesmo a quinta não tem nenhum lugar no mundo eu nem sei bem se devo chamar àquilo quinta. Como já passei por lá sei que existe mas não é uma herdade nem um sítio desses que os pontos nos mapas nos indicam, é mais como que um acidente que acontece por conveniência de um conto breve onde não acontecem coisas importantes mas se fala de pessoas que realmente existem. O senhor W é assim uma entidade que manda sem mandar, é dono de uma quinta que não tem espaço ou dimensão mas que existe e tem até animais. Neste momento são cinco mas já foram mais. De resto não sei o que vos posso dizer sobre o senhor W de forma a o tornar reconhecível, aquilo que vos posso dizer é que é uma espécie de homem, tem um corpo e como todos os corpos vêm com uma sombra ele também tem uma. Tem mãos e pés por isso pode-se dizer que anda e gesticula enquanto fala, sim porque ele fala, fala pouco mas em contrapartida ri-se muito, ri-se muito de nada. As pessoas incompletas são assim, não fazem muito sentido e por isso eu não me preocupo demais e deixo esta descrição a meio e passo para o primeiro animal do senhor W.
O Quicas é o cão da quinta. Um animal bem disposto, conversador, amigo de si mesmo primeiro e depois de quem quiser ser seu dono. É um rafeirote e é esperto. Gosta muito de abanar a cauda e passa o dia a cansar o silêncio com piadas como adivinhas, as respostas só ele as sabe e só ele se ri. Os outros riem-se dele porque os cães mesmo estes mais toscos acabam por ter piada. O Quicas não é bem um cão de guarda mas também na quinta não há nada para roubar por isso nunca se lhe pediu que fosse um bom cão de guarda. Este é daqueles cães de quem nem se pede nada, ele existe e passa por um amigo porque a natureza dos cães normalmente é amigável. É claro que no caso estamos a falar de um rafeiro tão rafeiro que talvez nem cão seja e por isso é que este animal é um traidor de péssima estirpe. Já conta com uns bons anos mas não tem aquela dignidade que alguns animais adquirem com o envelhecimento. Como é pequeno não se pode dizer que tenha bom porte e até lhe falta a elegância da preguiça e paciência que os melhores cães partilham com os gatos, não, este é um bicho esperto mas inquieto, está sempre de olhos postos num ponto enquanto fareja outro, e esta sua manha não se fica pela curiosidade, se cão que ladra não morde este é daqueles que definitivamente não ladra, mas não lhe virem as costas.
A seguir vem a Joaninha que é o primeiro dos insectos. Partiu uma asa há muito muito tempo, há tanto tempo que ninguém se lembra de quando ela ainda voava mesmo mas isso não a impede de bater com aquilo que lhe resta. Há quem diga que nos melhores dias ainda é possível vê-la voar, mas é mais por simpatia, no fundo tudo o que se consegue ver são saltos e desacertos. O poder de sugestão ainda permite alguns artifícios mas a gravidade é que não perdoa. Sem asas não vale a pena lutar. E se por um lado é certo que a um bicho de quinta não se exige tanto como um bicho de selva, nesta quinta em nenhures a Joaninha é a melhor rima que se arranja para a palavra rainha. Assim ela semvoar ainda consegue fazer umas acrobacias e quem já a viu a dar as suas quase asas à imaginação sabe que ela tem jeito para desenhar nuvens no chão. Além do que como rainha que vai conseguindo ser sempre que cai desamparada duma das suas nuvens de terra deixa-se lamber pelo primeiro linguarudo que apareça a salivar. Como todos gostam de ser heróis por um dia a Joaninha consegue ser a donzela indefesa para cada herói que passa por esta quinta onde não há rei nem roque.
A personagem que apresento a seguir faz parte das intruções de qualquer livro que explique como se deve escrever um conto. Tem que haver sempre uma personagem que só faça sentido no mundo da ficção. Neste caso estou a falar da vaca Mucasta, a doida da quinta. Não preciso de descrever uma vaca, cada um faz para si uma ideia aproximada do que é uma vaca é claro que a Mucasta desrespeita mesmo as ideias mais originais sobre o que é próprio de uma vaca. A Mucasta é mesmo a personagem de que mais me orgulho neste meu conto quase sem história sobre uma quinta que não aparece em mapa nenhum onde vivem animais que só existem porque há sempre espaço para mais uns neste mundo. A Mucasta não dá leite e não serve para aquelas coisas que as vacas normais servem, esta serve para especiais inutilidades. Por exemplo a Mucasta adora sonhar, a sua especialidade é mesmo essa, sonha todos os dias acordada e a dormir, fala e dança e canta e tudo sempre a transbordar de sonhos, só pára mesmo para chorar e envolver a quinta nos dilúvios das suas decepções, mas mesmo aí é só para abrir caminho para novos sonhos com novos horizontes cada vez mais afogados na loucura de uma vaca que talvez não tenha sido feita para bife mas só para carcaça adiada que com alguma sorte talvez também não sirva para procriar. A vaca não deixa de ser um daqueles animais que dá à quinta a sensação de que estamos realmente numa quinta. Esta é espalhafatosa mas cumpre o seu papel, depois de muita cerimónia lá rumina e ao longe não deixa de ser uma vaca como as outras ainda que por dentro se arrebente com gases e outros sintomas desses sonhos atulhados. Bem, e quanto à vaca não há muito mais a dizer, é a criatura que dirá as coisas mais descabidas nos momentos mais inesperados para servir à história todos aqueles extras disparatados que não permitem que o leitor se sinta demasiado confortável quando a lê.

A seguir vem um bicho que não merece mais linhas do que aquelas que são necessárias para deixar clara a ideia de que não merece mais do que o momento de uma pausa para virar a página sem no entanto dar tempo para largar o conto e mudar para outra forma menos evidente de se perder tempo. Gôgô, o rato vermelho. Está apresentado. De resto costuma ficar entre as patas do cão ou em cima da última personagem deste meu pequeno e desinteressante conto, o bicho da conta.
O bicho da conta é uma ela, tem um nome desses que se esquecem tão depressa que eu nem me dou ao trabalho de o escrever, é pequenina e quando se fecha fica como uma bolinha preta capaz de saltar a qualquer momento para fora do quadro da nossa atenção. Esse é aliás o seu único truque e é um truque precioso se tivermos em conta que este bicho da conta apenas faz de conta que encontrou uma quinta à qual sente que pertence. É difícil para um bicho que só sabe fazer de conta responder em nome de uma quinta que não tem um lugar certo no mundo.

E agora que já apresentei as minhas personagens sinto-me fragilizado porque me custa um pouco traçar detalhadamente as linhas de um conto que interesse alguém a partir deste material. Mas imaginemos que um dia o senhor W não voltou para casa, para a sua ideia de quinta plantada no último lugar que lhe pareceu conveniente. Aos animais da quinta restou esperarem pelo seu dono. E assim eles esperaram e esperaram e o tempo passou e com o tempo também a ideia da quinta foi passando e foi-se arrumando nos lugares mais recônditos da mente para onde fogem as lembranças que vamos perdemos. E quando já nenhum dos animais se lembrava porque razão estavam ali à espera cada um seguiu o seu caminho. O cão foi atropelado e estava vivo quando viu um vulto embriagado chutá-lo para a berma da estrada. A vaca foi abatida e foi na boca de uma família que ao longo de um ano foram sendo mastigados todos aqueles sonhos. A Joaninha foi apanhada por um camaleão que não quis apenas lambê-la mas devorou o seu corpinho afectado. O rato morreu ao dar uma dentada num pedaço de queijo que parecia estar à sua espera no caminho, não chegou a perceber o mecanismo da ratoeira. O bicho da conta continuou de jardim em jardim e vive uma vida de fazer de conta, e talvez ainda apareça noutros contos meus mesmo que eu me esqueça de o mencionar. De resto nesta história quem foi traído foram os animais que não perceberam que uma quinta mais do que um dono precisa mesmo é de um lugar no mapa, um pedaço de terra que sirva de ponto de encontro para todos os animais que gostavam de ser mais do que aquilo que espera o corpo cansado de um senhor que não tem um pedaço de terra a que possa chamar seu.

4 comentários:

cereja disse...

porque é que todas as pedras atiradas cheiram a frustração podre, ressentimento escondido, fraqueza nata?

Vergonha de ser.

Ass: Bichinho de contas

Diogo Vaz Pinto disse...

porque te acertam na cabeça. aliás só assim é que se explica que as pedras tenham cheiro a esse tipo de coisas - é uma espécie de ilusão criada pela pancada. isso passa, como o resto. boa a sorte para a queda

JRS disse...

Tenho pena... Tinha visto mais em ti...

Diogo Vaz Pinto disse...

:)

mais não, menos, muito menos

mas esse é o problema quando se menospreza o lado de lá - e há toda uma vida que continuará deste lado, paralela mesmo que invisível