sábado, setembro 01, 2007

Lista de coisas que detesto

Correndo o risco de ficar aqui
até que as palavras se esqueçam
de mim, tinha que ter um poema
em jeito de lista, se não se dá que
(os meus) tenham sido todos assim,
listas de dores e sensibilidades,
pensamentos inúteis e fósforos
que nunca pegaram fogo a nada.
Pelas razões que escondo porque
escrevo, em troca de mais versos
banais, talvez alguém possa dizer
que honestamente só alinhei
restos de leituras incompletas,
fragmentos de incompreensões
com a benção, quem sabe, da repetição
(breves coincidências incriminadoras)
passagens de alguns bons autores
menos convencidos que eu do milagre
de generosas doses de incerteza.
Na falta de uma iluminação própria
recorre-se à artificialidade de sentimentos
negativos. Quem é que se pode queixar?
É coisa que podemos sempre achar -
anda ao preço da chuva na televisão
e nos jornais - há as promoções especiais
e dia sim dia não até anunciam que é a semana
dos ódios de estimação. Assim em paradas
organizadas, cada um vem à rua
passear com o seu animal cioso
cheio de doenças de raiva para trocar
com os outros... O meu animal é um ogre,
é mau como os piores, mas tem predilecção
pela gente que está por tudo: tudo lhes serve
tanto vai bem um poema do valter hugo mãe
como um do Manuel de Freitas, se é poesia é bonito
e barato, lê-se a descer nas calmas... Os versos, afinal,
não são escadas, ninguém tropeça - se tropeçasse
era ver o reis-sá a declamar a sua poesia sem dentes
enquanto nós cá atrás nos riamos daquele
enjoo de tanto céu... lá-lá-lá e mar mar mar
suavizado finalmente por dificuldades de dicção.
Teria ainda assim a sua fiel audiência de narcolépticos
capazes de se levantarem para bater palmas
depois que piscasse o sinal de aplausos. Tudo
tão cansativamente idílico, mas como vivemos
no fedor das cidades com as nossas estatísticas
para medir o resto - do nascimento à morte -
ninguém se chateia nem queixa. Está tudo bem
com os peixinhos e os passarinhos piu
piu piu piu piiiiiiiiu! Ai ai e olha o sol e o vento olha -
lírica da anestesia, sim, que isso é o máximo que se pode
pedir desta arte deco, além claro dos bálsamos
que metem esse apelido tão gasto em tudo
amor amor amorzinho inho inho inho!
Sem esquecer as dores metafísicas (como me doem
os cornos, como sofro eu por amor!). Já o tesão,
não! isso não, só depois de muita poesia
é que lhes dá o tesão e só aí é que passam
finalmente à já sacramentada foda
que cheira a rosas, lírios... a sexo NÃO!

...
A verdade, por muito que lhes custe,
não é que a poesia não se venda
como outra puta qualquer, eles é que são
uns chulos idiotas e em vez de gerirem
um bordel com meia dúzia de mulheres
versadas nos truques da profissão
aproveitam-se de tudo o que é buraco
e deixam os clientes muito desconfiados.

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