sexta-feira, agosto 31, 2007

melancolia

the history of melancholia
includes all of us.

Charles Bukowski

Talvez, afinal, seja só uma contagem. Alinhados, por trás das portas de um guarda-fatos sem sabermos dizer se somos roupa ou se já fazemos parte da fome das traças. Há qualquer coisa de necessário nesta forma como acabamos por estar todos arrumados por ordem de cor ou tipo ou outras dessas manifestações do espírito prático. Qualquer espírito, se é que ainda vamos a tempo de falar nestes termos, qualquer espírito nos dias de hoje não é mais do que prático, não há outra corrente mística, tudo está assim de uma forma mais ou menos grosseira arrumada para os dias. A melancolia é uma reminescência de qualquer coisa que se calhar o progresso e a evolução estão a tentar apagar de nós, ou não, pode ser que seja uma brecha, um buraco na sombra, uma perspectivar para o futuro. De qualquer forma falar de melancolia é quase um crime de gente com a atenuante da ingenuidade, ainda só não é proibido mas a não ser que por mil outras formas de organização mental se consiga revelar aos poucos este descarnado osso, então somos vítimas da veleidade e todas as outras manifestações da derrota, nomeadamente a verdadeira e humilhante solidão ou, por outras palavras, o desamor.
Se alguém vos falar de contagens, pensem na contagem dos corpos, pensem em valas comuns, pensem na vida antes da morte, porque nos dias que correm arranja-se sempre muita dignidade para a vida depois da morte e está tudo muito organizado na paródia dos céus com anjos e outras criaturinhas interessantes como virgens à espera de serem ensinadas sobre o sangue e a terra, ou mesmo os vários níveis do inferno com os seus diabos e as doenças sem cura e sem escapatória - mas à vida que para já é a que temos são muito poucos os templos que lhe são dedicados.

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