Fazes contrabando de gestos de carinho,
vendes tudo a um preço acessível e deixas-te rodear
dos que sofrem de inabilidade sentimental
gente que te compra feridas nesse mercado negro
onde romance se tornou um código entre putanheiros
para vícios inofensivos como a pornografia e outros
mais perniciosos que liberam o teu clube de tarados.
Aproveitas-te do teu dom e capitalizas cada emoção
retalhada para venda a estes consumidores que sofrem
da toxicodependência das ilusões, sonhos inacessíveis,
antes de se afogarem na depressão que tanto lhes facilita a morte.
O único crime possível num mundo assim é a ingenuidade.
Não, a culpa não é tua, a própria vida negoceia constantemente com a morte
pelo menos é isto o que faz mais sentido dizer aos carneiros pregados no teu tecto quando algo te perturba o sono
- no fundo e ao cair do berço cada um está entregue a si
neste mundo onde uns traficam, outros consomem
e todos morrem. O plano mestre de deus é o caos.
Tudo é contingência de sórdidos ritos sexuais e
a propria sensibilidade estéril da sociedade atesta isso.
Predadores sexuais, violadores, pedófilos e pederastas,
proxenetas e banqueiros, as várias categorias de amantes,
o que podes tu contra este colégio? Só facilitar-lhe a perversão.
É isso que fazes - és servil, uma cleaning lady,
nada que se pareça com uma rameira, longe disso,
és a mulher que mantém a lavandaria de esquina aberta nas desoras
a qual, não por mero acaso, quiseste associar à prostituída ideia do amor.
É aí que apagas do uniforme desta milícia de cadáveres adiados
os vestígios da sua falta de pudor e deixas assim
que caminhem para fora dos antros onde se refugiam
mal se vêem livres da luz do dia.
Ninguém te pode culpar, seria excesso de hipocrisia (fosse isso possível),
apenas cumpres o teu papel e atiças a insaciabilidade
de um organismo que se conformou com o seu destino trágico e necessário,
a auto-destruição.
3 comentários:
Num texto em branco quis-me poeta
da agonia de não saber as palavras que falam
o poder dessa dor que temo
e de que não quero sofrer menos
Fossem as palavras de somenos
e ainda assim o silêncio no seu vozeirão
ensurdeceria os meus ouvidos
com o ruído desse amor que me embala
Fala esse amor que me cala
que tem a força da onda
e a suavidade da praia-mar,
que de tão vivido fez-se puro
como a água doce do meu chorar
quem és?
um passante
uma pegada sem assinatura
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