terça-feira, agosto 07, 2007

Interpretações póstumas

O escritor um dia escreveu sobre si mesmo. Escreveu sobre a vida que ainda tinha e sobre a ligação que o tendia para a morte. Antecipou numa linha o seu fim. Disse qualquer coisa como "e um dia morrerei" ou "e um dia morrerei e isso terá sido tudo. Não haverá mais nenhuma linha a acrescentar, mesmo que as acrescentem".
Quando corrigia o seu texto doeu-lhe não ter encontrado um erro ainda que um mero erro de gramática. Doeu-lhe no peito ler aquelas suas palavras escritas aparentemente sem qualquer temor, até com uma incerta naturalidade. E se enquanto escrevia se deixava levar pela apreensão inevitável das coisas quando as lia sentia um cancro a crescer-lhe no espírito e pensava - "Não fomos feitos para morrer! Que trágico é sermos empurrados e chegarmos ao ponto de fingir que nos entregamos serenos." Essa frase contudo só a pensou para si não quis acrescentá-la porque lhe pareceu que seria provavelmente considerado ingénuo caso só postumamente fosse reconhecido.

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