sexta-feira, agosto 31, 2007

Elegia Negra

Eu sou judeu, de fato emprestado, a abandonar um baile
Que nunca deveria ter começado.
Eu sou a última carta de um soldado, triste e emudecida na moldura
Que a guarda em casa dos pais.
Eu sou o cego Lothar Hermann que fugiu das torturas na Kristallnacht.
Señores, señores, que el hombre de Himmler vive en el 4261 de la Calle Chacabuco.
Sou Graciela Narcisa Sirota raptada, torturada e violada,
Queimada com a brutalidade dos nazis.
Sou também Maximo Handel agredido.
Sou Medinat Israel vs. Adolf Eichmann. Processo-crime 40/61.
Sou Hannah Arendt em Jerusalém a apagar o cheiro de
Martin Heidegger de entre as pernas.
Morri em Auschwitz-Bikernau, Chelmno nad Nerem,
Treblinka, Majdanek, Sobibór, Belzec, Maly Trostenets, Dachau, Belsen.
Eu sou vizinho da puta alemã que pariu o alemão que me matou.
Eu festejei Korsun a 18 de Fevereiro de 1944.
Eu sou a viúva que chorou no dia 5 de Setembro de 1972 as imagens de Munique
Que chegavam através da televisão.
Eu sou a VINGANÇA, sou a Ira de Deus, sou a Fonte da Juventude.
Eu sou o falcão dos Golan que transporta nas garras uma serpente morta.
Sou o réptil vertido por acaso aos crematórios. Sou o bicho voador
Que rondava as câmaras de gás.
Eu marchei sobre o deserto a um passo de cada vez e ergui os pés da areia.
Eu vi Tito arrecadar para o seu exército as pedras do Templo.
Eu vi a minha filha ser violada antes de me embarcarem para África.
Eu sou a Hatikvah de Naftali Herz Imber, da Galicia à Palestina.
Eu sou também a melodia de Samuel Cohen.
Sou Naomi Ginsberg, com medos.
Sou lapidador de diamantes em Antuérpia, escritor de estojo de pele
A percorrer a ruas empedradas do centro de Praga, sou agiota, usurário,
Endinheirado, fraco de talentos para o desporto, rosto anarizado.
Sou a visão mais humana do judeu Shylock, mas sou também o velho
Sedento de carne, o humilhado perante prudência do Doutor.
I would my daughter were dead at my foot, and the jewels in her ear!
Venham, venham abrir-me o peito a sangue frio que eu não engoli jóias!
Sou o judeu, o comunista de barbas brancas, o Bento da Vidigueira.
O mesmo é dizer, sou Abraão, Moisés, Salomão, Theodor Herzl.
E sou eu próprio, aquele que Hitler e Nabucodonosor certamente mandariam calar
Sem quaisquer exéquias de chefe de Estado.
Eu sou o teu filho com o eterno dom das lágrimas.
Sou o que tem medo ao exílio.
Sou dois mil anos em que apenas houve esperança.
E, se isto é um homem, eu sou também um homem.
Sou uns lábios proibidos de dizer shalom.
Eu sou o meu povo e, ao mesmo tempo, sou a semente mais genuína do meu ser.
Eu sou este poema e este poema é o senhor Cohen, o senhor Kaufman,
O senhor Stern, o senhor Levy, todos assassinados por um terrorista às 16:35
Num autocarro em Tel-Aviv.
Sou aquele que ao fim de cinco décadas depois de dois mil anos
Apenas se pode definir pelo seu oposto, isto é, pelo inimigo.

2 comentários:

Sara F. Costa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Sara F. Costa disse...

Recordo-me perfeitamente deste poema do David.
Perturbadoramente genial, eu diria.