Para falar de ti era preciso matar
a música, sentir-lhe o flanco
dilacerado. Eu não sabia que a tristeza
podia ser isto, uma doída febre de viver
ao teu lado, bebendo muito, sorrindo por vezes
de entre os destroços.
As minhas mãos tremes, tentando
esboçar a tua distância rebelde
às palavras - e não há ninguém para saber
que os violinos me sufocam, devagar.
Não fosses tu e pensaria que nunca há ninguém,
que bastam os cruéis violinos.
Mas a casa cresceu, encheu-se
de rumores vagos e desesperantes, artíficios
ou não do país impossível que quisemos escolher.
Este extremo deserto do corpo.
Quem diria afinal que o inferno era tão bom?
Suspeitaste-o talvez desde o ínicio,
quando uma triste praça de Lisboa nos cumulava
de desabrigo. Eu já nada tenho a dizer
- abandonei as certezas numa taberna qualquer,
preferi-lhes vinhos fortes e deslumbrantes,
errâncias maiores.
Até por fim perceber que as lágrimas
não precisam dos olhos e que chorar
é apenas o modo
como o tempo docemente nos fuzila.
- Manuel de Freitas
Sem comentários:
Enviar um comentário