terça-feira, julho 17, 2007

As férias

As férias deviam ser mais radicais. Eu estaria disposto a esquecer por um mês ou até mais o meu corpo e a minha identidade. Gostava de descomprometer-me de tudo aquilo a que chamo vida e experimentar uma noção diferente, uma libertação daquilo que já tenho como certo, daquilo que já decidi não ser para mim. Essencialmente eu gostava de descansar de mim mesmo.
Acho que seria necessária uma verdadeira opção de mudança - se a nossa vontade passa por despir-mos as malhas cansadas em que nos enredamos de dia para dia.
Este Verão gostaria de me chamar Rodrigo, Tomás ou João Lúcio, talvez Ana... Não sei, o que sei é que gostava de despir este fato de Diogo, este peso que é ser o que já disse mil vezes que sou... e pior que isso, este esforço de tentar ser o que acho que devo ser. Estou cansado. Quero férias.
Deixava-me pendurado numa cruzeta entre as camisas e os casacos de inverno e seguia em frente com uma outra cara, um outro sorriso e outros olhos. Seguia para experiências que já recusei e experiências que nunca procurei, seguia para as asneiras, para as asneiras que nunca fiz e metia-me a fundo em tudo como se a vida fossem uns dias e Deus estivesse sonolento e incapaz de me vigiar.
Tenho esta ânsia profunda de me ver livre de mim. Ao fim de certas noites depois de incertas conversas sobre nada e qualquer coisa que nunca é tudo, sinto-me devastado, sinto-me perdido em mim e já não sei dizer onde estou eu, se perdido por dentro ou se perdido por fora. Não sei nada, só sei que sinto isto, este cansaço. Se me perguntassem que tipo de pessoa sou - caso quisesse ser honesto - não poderia dizer que sou um jovem entusiasmado, um espírito rebelde com fome para a aventura, não, eu teria que dizer que sou um jovem cansado.
E é claro que isto é um final para um dia mau mas não deixa de ser verdade que estou doido por umas férias que nunca terei.
Há sempre um conforto mesmo nesta tristeza da qual eu não posso abdicar. Sou eu. Não posso deixar de ser eu sem deixar de ser eu e as escolhas que fiz aos poucos deram nisto, mesmo que não as possa explicar a todas ao menos entendo a minha cabeça e se é verdade que por vezes gostaria de ser solto no mundo de outra pessoa, mal fosse necessário prestar contas por algum abuso já estaria a justificar-me perante um juíz demasiado severo e com nenhuma complacência. Um juíz chamado Diogo.

1 comentário:

Tito Rendas disse...

o primeiro passo para mudares de atitude ou de maneira de estar é saberes reconhecê-lo. a proposito, entrei hoje de ferias =)