quinta-feira, julho 05, 2007

Subindo andares

1º os livros são as mães dos escritores

2º há escritores que entendem poesia

3º todos os leitores sérios de poesia são poetas

... só que há poetas envergonhados que desistem ao mesmo tempo que escrevem
e outros desavergonhados
que só por azar nunca se vêem publicados

4º na biblioteca estavam uns e outros
e eu sentado numa mesa a enxugar o álcool
das páginas [SIC] do Manuel de Freitas
e descia a correr (mesmo as ruas a subir)
do seu mapa de traçado poético
que enfeitava as famigeradas ruas da velha lisboa
antepassada da cidade que eu conheço

5º dobrei os cantos de quatro páginas
onde entre ebriedades despontavam poemas completos
e depois larguei o livro no carrinho para uma senhora de idade,
sem tempo para a poeticidade, o enfileirar nos F's

6º deixei a biblioteca e enquanto me cruzava com leitores magricelas com péssimo gosto para se vestirem, desfilando o aspecto de quem gostaria muito de se apagar nas palavras de um livro obscuro ou mesmo nas suas próprias
- pensei no melhor poeta de todos e pensei na possibilidade de ele não ter tido ainda o tempo ou a paciência para elaborar o seu primeiro verso

7º muito depois pensei-me a mim por ali a pensar sobre coisas que consigo e não consigo escrever

8º voltei a pensar que estou à espera de encontrar, ao virar de uma esquina, um gémeo meu
9º já estou farto de estar sozinho e só me sinto bem assim
vou esquecendo os amigos pouco depois de os fazer
e sinto que os inventei
porque quando deixei de me esforçar perdi-os a todos
nem nos corredores da faculdade consigo acenar
àqueles rostos a que ofereci tantos sorrisos

10º agora estou sentado à secretária
aqui é que redijo os meus genéricos pedidos de desculpa
e depois não sei os endereços de toda essa gente:
os maltratados, os decepcionados, os envergonhados, os abusados, os agredidos, os esquecidos, os abandonados, os assustados e (creio eu que todos eles também) muito enganados por mim e quanto a mim... o meu erro foi um só -
MAS - foi sempre a última coisa que fiz
11º despeço-me sempre de "toda essa gente" depois de um grande erro
12º e ainda assim fico à espera de quem toque lá em baixo na campainha
e suba os doze lances de escadas para me dar tempo de escrever
um poema com nome próprio que saiba requintar a palavra desculpa.

Sem comentários: