
Agora as horas não fazem tempo
O tempo não te marca
O relógio é um pássaro imortal
Imortalmente chato e monocórdico
Preso numa gaiola redonda
De onde sabe que não vai sair
Tu tens um na parede da cozinha
Já lhe deste nome mas esqueceste-o
Por vezes deitas-te e é como se dormisses
Por vezes acordas e é como se vivesses
Deixaste uma rotina à tua espera
E fazes tenções de voltar a ela
Entretanto não marcaste uma data
E de qualquer forma ninguém está à tua espera
Evitas passar à frente do espelho
E se ainda te lavas é para anular o cheiro
Já deixas os gatos lixarem-te as alcatifas
Entrar na sala e fazerem-se dela senhores
As tuas roupas estão por aí atiradas
E o armário é das cruzetas
Já não te dás ao trabalho
O teu almoço são cereais
Ao jantar metes uma barra congelada no micro
Os livros são só as capas e os títulos que prometem
Mas não pegas em nenhum se não te prometer uma outra vida
O que sabes ou não sabes já não é uma medida para ti
E não estás a pensar perguntar mais alguma coisa a alguém
O mundo a ti dificilmente perguntará alguma coisa
E sempre que te passa pela cabeça um plano novo
Lembras-te dos planos que falhaste por desistência
E a sensação de que podias ter feito tudo
É um espinho cravado na tua vontade
Aos poucos vais-te tornando uma sombra da casa
E não é que não te preocupes
Mas as tuas horas não fazem tempo
O tempo não te marca
O relógio é um pássaro imortal
Que não canta, não te encanta
Pia só por piar.
1 comentário:
O que vale é que o meu relógio da cozinha não pia. Faz tic-tic. Eu é que pyo. E os meus gatos são virtuais.
(esqueci-me de te dizer ontem, claro que o Ney e o Caetano são h; mas só o ano passado é que eu soube que além da Simone e da Bethania, também a Adriana C., a Daniela Mercury, a Gal, e outras são sapatão, até fiquei irritado a achar que era um lobby, não gosto de lobbies)
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