
O cão vadio desenterrou um osso
Era comprido, um osso de homem
Enrolada no osso havia uma folha
Pobre, maltratada, suja da terra
Do canteiro de flores agrestes
De um bairro lisboeta, daqueles
Dos mais antigos, onde as crianças
Ainda brincam na rua e não se trancam
Em casa para os mundos novos
Das consolas e comandos e jogos
Não estas crianças não precisam
Desse consolo, têm amigos a sério
Daqueles que se abraçam na rua
E um jovem outrora escreveu ali
Recordando os dias de brincadeira
Na rua que tinha uma vida própria
Um bairro dos antigos que mereceu
Um poeta daqueles que passam horas
Sentados, tocando o papel
Até encontrarem a forma, a rima
E o sentido perfeito para explicar
A quem não cresceu ali como era
Partilhar a vida do bairro
Conhecer muito bem cada pessoa
E ter vontade de escrever versos
Para lembrar que houve carne
Agarrada a esse osso e que essa carne
Desapareceu mas ficou o poema
Ficou a rua e a memória.
Sem comentários:
Enviar um comentário