
Quero falar-lhe
Tenho querido há muito tempo
Deixei-lhe desenhos meus
Nas ruas
Fui deixando desejos
Que já não sei se se realizaram
Já não sei tudo o que lhe deixei
Palavras foram tantas
Coisas escritas de repente
Atirei-as pela janela
Senti-me um pouco tolo
E depois fui fazer outra coisa
Mas sempre chegou outra tarde
Dessas tardes em que sem nada para fazer
Um homem se senta e sem pensar nisso
Começa a fazer coisas que não são p'ra si
Não são realmente p'ra ninguém
São para ela
Não posso falar muito de mim
Sem vos apresentar a ela
Quem também é daqui não diz nada
Mas quem me conhece lá fora
Diz logo que eu sou tão dela
Normalmente gozam-me um pouco
Mas sei que é da graça dos sinais
Que eu roubei dela
Nunca soube bem como lhe falar
Mas sempre lhe falei
Houve alturas em que precisei mesmo dela
Houve alturas em que andámos zangados
Mas sempre que a deixava logo me sentia um mimado
E voltava a correr para fazer as pazes
Tenho pena quando a vejo
Certas noites, sobretudo noites
Entregue aí a gente feia
Emporcalhada pelos hábitos
Maltratada pelos abusadores
Os cretinos, os egoístas, os porcos
Quero reclamá-la para mim
Fechar-lhe as ruas
Não deixá-la ver ninguém
Porque gosto muito dela
Gosto tanto dela
E torno-me um pouco egoísta, feio, mau
Ela foi minha cúmplice
Em muitos disparates, até alguns crimes...
Minha confidente, companheira silenciosa
Nunca discutiu comigo
E ainda assim nunca me deu razão quando estava errado
Mas fez-me sentir bem quando estava certo
Não sei se me ouviu falar-lhe
Se viu algum dos desenhos que lhe deixei
Ou das palavras que lhe escrevi
Mas sinto-a sempre quando saio de casa
E vou para um passeio
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