Bernard caminhava pelo deserto já pela terceira noite consecutiva. A sede era tão intensa que ameaçava tombá-lo definitivamente. O sono era incrivelmente doloroso e devastador, mas era também carinhoso e gentil, sempre disposto a estender-lhe a mão. Mas Bernard sabia que se cedesse ao sono, se deixasse que este o embalasse carinhosamente nos seus braços gentis, nunca mais despertaria, a areia o engoliria para todo o sempre e não haveria amanhã. Não voltaria a ver o Sol nascer. Não voltaria a sentir sede, nem fome, nem frio, nem calor, mas também não voltaria a sentir nenhum prazer. Seria a morte. E a morte, embora naqueles momentos lhe parecesse formosa e sedutora, era sua inimiga.
Sentia-se incrivelmente fraco e duvidava que pudesse continuar caminhando por muito mais tempo, pois a tortura do deserto era demasiado dura, até para ele.
Cada vez com mais e mais frequência, olhava para as estrelas e para a lua cheia e gritava como se estivesse possuído acusando a Deus dos maiores crimes e atribuindo-lhe a culpa por todos os seus males. Acusava-o de ser um traidor e não cuidar do seu filho nem dos seus companheiros, acusava-o de ser um cobarde por deixar que tudo aquilo lhes acontecesse, quando tinham empenhado tudo o que tinham, até as suas vidas, para defender ao grande Deus dos homens e divulgar a sua palavra. Mas cada vez que o fazia, ajoelhava-se sobre a areia e rezava com as mãos erguidas no alto apontando ao céu, morada divina; entrelaçadas carinhosa e fervorosamente, da mesma forma como tinha visto Jesus rezar á tanto tempo atrás no Norte de Espanha; com os olhos fechados com força e os músculos contraídos, e com a cabeça baixa em sinal de auto-reprovação.
O caminho do Guardião está repleto de provas de toda a espécie. Aquela era outra prova, talvez a mais dura de todas as provas ás que se tinha enfrentado ao longo da sua missão. E Bernard começava a duvidar do seu valor para superar aquela prova.
Não sabia se poderia cruzar aquele deserto, mas se desistisse, defraudaria Jesus, e a única maneira de mostrar que era digno da sua confiança seria morrer apenas quando fisicamente o seu corpo desmoronasse. A sua vontade não podia quebrar. O corpo tem limites, mas não o espírito, o seu mestre assim lhe tinha dito uma vez. Se o seu corpo não agüentasse, ele nada poderia fazer, mas se a sua vontade não resistisse então aquela seria uma traição imperdoável. Não seria digno da confiança em que nele havia depositado o Homem a quem tinha jurado lealdade absoluta. Ele era o primeiro dos soldados de Cristo, não em cronologia, mas era-o no que dizia respeito ao afeto que lhe dedicava o profeta e á confiança em que nele depositava. Sem embargo, a Bernard lhe faltavam as forças e o seu valor era posto em causa.
Os pés doíam-lhe tanto que a cada passo ameaçava derrubar-se, mas seguia uma e outra vez, caminhando rumo á direção que intuía ser a correta embora pudesse perfeitamente estar a andar em círculos. Ou pior ainda, para trás.
A cada segundo o seu corpo importunava-o com um pedido incessante de água, mas ele recusava-lhe o exigido uma e outra vez.
Nessa terceira noite, caminhando entre as dunas do deserto, banhado na escuridão mais profunda, Bernard sentiu-se observado. Essa sensação permaneceu incomodando-o durante horas até que o som do vento levantando a areia se confundiu com um murmuro, mas o solitário caminhante, de pés feridos, olhos injetados em sangue e pernas castigadas incessantemente por uma caminhada inumana, não deteve o seu passo até que por sua vez esse murmuro se converteu num sussurro que provinha da escuridão.
Uma voz sinistra e andrógina cercou-o como um mar de chamas, e embora este cerco fosse invisível, Bernard sentiu como o dominava e o encurralava.
O vento soprava mais forte que nunca e criava a partir da areia redemoinhos quase invisíveis que se engrandeciam e se multiplicavam à sua volta até ameaçar envolvê-lo. O vento batia violentamente na sua cara, e foi obrigado a curvar-se e assentar bem os pés na terra para não perder o equilíbrio, porque agora estava a ser castigado pela força do vento que o desafiava a manter-se em pé, e maltratado pela areia que arranhava a sua pele de forma dolorosa.
Na sua frente formou-se uma enorme duna e viu como no seu cimo aparecia um vulto.
O vulto desceu pela duna lentamente enquanto os sussurros se intensificavam á sua volta e podia distinguir como agora podia observar uma infinidade de pequenos vultos que o rodeavam por todos os lados.
Mas eram apenas sequazes do grande demônio que se aproximava e o qual revelou a cara levantando o capucho que a cobria. Estava vestido com uma longa capa negra e sua face era, como a sua voz, andrógena, e tinha uma tonalidade distinta á dos seres humanos. Era completamente branca e refletia o luar, ganhando uma tonalidade algo prateada. Embora tivesse olhos e boca e nariz e orelhas, não tinha sobrancelhas nem cabelos nem qualquer pelo e os olhos eram bolas negras, dando a impressão de que o demônio não tinha olhos, ou que os seus olhos eram a própria escuridão do deserto. Mas esses sinistros olhos eram intensos como nenhuns outros e o olhar do demônio queimava e debilitava Bernard, que não o podia encarar, nem já manter-se de pé na sua presença.
“O teu Deus abandonou-te.” O Demônio falava uma língua que não podia ser falada por nenhum mortal e que se assemelhava a um terrível lamento, vindo do mais profundo lugar da mais atormentada alma. Mas era uma língua entendida por Bernard. Era uma língua inventada pelo ser mais obscuro para comunicar-se com seres de escura natureza.
“ Mas não desesperes guardião porque outro Deus te reclama.”
Os vultos que rodeavam Bernard se aproximaram e o agarraram com as suas garras e ele pôde observar como não tinham forma humana ou animal, era uma forma demoníaca e não orgânica e não tinham cara, tinham somente escuridão como semblante e vestiam também capuzes e capas negras. O sangue jorrou quando as inúmeras garras agarraram Bernard e perfuraram os seus braços e as suas pernas, e o içaram no ar.
Por mais que se debatesse, a resistência era inútil, pois estes seres que não superavam o metro e meio tinham uma força descomunal e as suas garras eram afiadas e furavam a sua pele como manteiga, e quanto mais se tentava libertar, mais o lastimavam. Quanto mais mexia os braços tentando libertar-se das suas afiadas garras mais elas o feriam. Estava completamente dominado.
Bernard viu como o Demônio fazia uso das suas artes demoníacas levitando até colocar-se a uns escassos dois centímetros dele, sobreposto ao seu corpo, suspenso no ar, em posição horizontal. Sentiu o seu hálito putrefato e como os seus olhos vácuos sugavam o seu espírito, e a esperança que ainda lhe tinha restado até àquele momento. “O Deus das trevas reclama o seu filho. Príncipe negro, é hora de regressar ao teu domínio e cumprir a tua tarefa.”
“Jamais!” respondeu Bernard. “O meu senhor é o senhor da Luz, tu és o seu Inimigo.”
Acto contínuo, uma dor excruciante tomou conta do impotente Bernard enquanto a escura criatura agora utilizava as suas garras para abrir-lhe a barriga e revolver-lhe os intestinos. “Se não cumpres os meus desígnios posso mostrar-te novas formas de sentir dor, formas mais intensas, formas mais eternas. O teu senhor é Lúcifer.”
A voz diabólica ressoava dentro da sua cabeça incessantemente enquanto sentia como O Demônio entrelaçava os seus intestinos, puxava-os, cortava-os e voltava a uni-los, e a dor só não o levou a desmaiar por alguma arte demoníaca exercida pela criatura, porque nenhum homem poderia agüentar aquilo sem perder a consciência.
Entretanto Bernard repetia incessantemente, o mais rápido possível, mas apenas em pensamento, as palavras “Jesus Cristo é o meu senhor.” Agora os seus gritos de dor já não podiam ser contidos e ecoavam pela imensidão do deserto, mas não deixava de repetir para si, na sua mente, essas palavras “Jesus Cristo é o meu senhor”, agarrando-se a elas como se agarra um náufrago a um pedaço de madeira flutuante que é a única coisa que o separa das profundezas do mar.
Este processo durou alguns minutos, mas Bernard não cedeu, e por mais que o Diabo revolvesse as suas entranhas, por mais que o Demônio o convencesse de que deveria servir a Lúcifer, enquanto brincava com os seus intestinos como plasticina, mantendo-o vivo e consciente com as suas artes escuras, Bernard continuou repetindo as palavras “Jesus Cristo é o meu senhor.” Converteu-as num amuleto, e o Diabo finalmente se convenceu de que não lhe podia tirar aquele amuleto. Apesar da tortura, Bernard estava protegido pela sua fé.
Então o Diabo mudou de tática e insultou e difamou Jesus Cristo incansavelmente o melhor que pôde, com uma inteligência e uma maldade superiores ás de qualquer homem nascido ou por nascer, mas Bernard continuava repetindo para si mesmo as mesmas palavras “Jesus Cristo é o meu senhor”.
Por fim, cansado, o Diabo ordenou aos seus sequazes que baixassem o torturado e o dispusessem na postura de um homem ajoelhado, porque Bernard não podia já mover-se. Quando os Demônios o deixaram cair um pouco para a frente, todas as suas entranhas se verteram sobre as areias do deserto mas ele não emitiu nem um som, nem sequer um gemido, e enquanto o seu corpo vazio se mantinha imóvel, a sua mente delirante não parava de reproduzir as palavras “Jesus Cristo é o meu senhor.”
O Diabo, compadacendo-se da sua vítima ou simplesmente agora convencido que era inútil continuar, aproximou-se lentamente, observou-o durante alguns instantes e finalmente, com um gesto rápido e poderoso, arrancou-lhe o coração do peito.
Mas mesmo agora, nas mãos do Diabo, o coração não parava de bater, não parava de bombear, não sangre, mas pura vontade, a mesma vontade inexorável que havia convertido Bernard no preferido de Cristo, a mesma vontade que o tinha levado a percorrer a senda da morte com uma fé cega no seu senhor, a mesma vontade que o tinha protegido das artimanhas do Diabo e lhe tinha permitido manter a sua inabalável fé.
O corpo de Bernard, outrora um corpo bonito e perfeito, era agora um saco vazio, com as entranhas derramadas e um buraco no lugar do coração. E a sua cara era a cara da morte, sem expressão, sem vida, sem movimento. Mas os olhos conservavam o brilho, que parecia aumentar agora em uníssono com o coração que batia mais e mais rápido e para o qual o Diabo olhava atônito. Embora fora do corpo, o coração batia em velocidade crescente. E as palavras, até então clausuradas na sua mente, saíam agora pela boca do castigado Bernard, em voz alta, cada vez mais alta, mas não era Francês nem Espanhol a língua em que falava, era a língua em que tinha falado o Diabo. Mas as palavras eram as de sempre, palavras de luz envolvidas pelas trevas, “Jesus Cristo é o meu senhor.”
O Diabo mirou incrédulo nos olhos flamantes de Bernard, que desta vez lhe devolveu o olhar, um olhar que refletia a mais profunda determinação. Já não eram as diabólicas artes mágicas do Diabo que o mantinham com vida, era a sua incrível vontade de sobreviver.
O corpo então prostrado elevou-se com uma velocidade e uma energia tais, que os demoníacos seres servis que o seguravam foram atirados dezenas de metros pelos ares.
Com uma força sobre-humana Bernard perfurou o peito do Diabo com a sua mão direita e, sem deixar de olhar dentro dos escuros olhos do diabo, arrancou o negro coração do peito do demônio e viu como a maligna criatura perdia o equilíbrio e se desmoronava sobre a areia do deserto. Acto continuo, levou o negro coração á boca e devorou-o, e quando terminou, apanhou o seu próprio coração que agora estava caído na areia, mas continuava a bater incessantemente, e também o devorou.
E o Diabo viu como Bernard lhe virou as costas e se dirigiu ao lugar onde estavam esparramadas as suas tripas e como as apanhou e também as devorou, e enquanto o fazia, nasciam-lhe duas enormes e majestosas asas prateadas. Quando terminou de comer as suas próprias entranhas voltou a dirigir-se ao Diabo na língua do mal, mas era agora mais alto do que antes, e mais forte, e os seus olhos já não eram verdes, eram agora da cor do fogo e o seu olhar era mais determinado do que nunca e as asas elevavam-se dois metros no ar como um símbolo de autoridade nos dois mundos, na terra e no céu e o Diabo temeu tal criação da Vontade, temeu que o pudesse destruir quebrando mais uma vez as leis do universo, mas tal não seria possível nem sequer para o guardião do filho de deus. Bernard aproximou-se do Diabo e apenas lhe disse, na sua porte majestosa, ao seu desafiante vencido “Não subestimes o Poder da Vontade” e levantou vôo, rumo ao céu estrelado, rumo á lua prateada, rumo a Deus.
Sentia-se incrivelmente fraco e duvidava que pudesse continuar caminhando por muito mais tempo, pois a tortura do deserto era demasiado dura, até para ele.
Cada vez com mais e mais frequência, olhava para as estrelas e para a lua cheia e gritava como se estivesse possuído acusando a Deus dos maiores crimes e atribuindo-lhe a culpa por todos os seus males. Acusava-o de ser um traidor e não cuidar do seu filho nem dos seus companheiros, acusava-o de ser um cobarde por deixar que tudo aquilo lhes acontecesse, quando tinham empenhado tudo o que tinham, até as suas vidas, para defender ao grande Deus dos homens e divulgar a sua palavra. Mas cada vez que o fazia, ajoelhava-se sobre a areia e rezava com as mãos erguidas no alto apontando ao céu, morada divina; entrelaçadas carinhosa e fervorosamente, da mesma forma como tinha visto Jesus rezar á tanto tempo atrás no Norte de Espanha; com os olhos fechados com força e os músculos contraídos, e com a cabeça baixa em sinal de auto-reprovação.
O caminho do Guardião está repleto de provas de toda a espécie. Aquela era outra prova, talvez a mais dura de todas as provas ás que se tinha enfrentado ao longo da sua missão. E Bernard começava a duvidar do seu valor para superar aquela prova.
Não sabia se poderia cruzar aquele deserto, mas se desistisse, defraudaria Jesus, e a única maneira de mostrar que era digno da sua confiança seria morrer apenas quando fisicamente o seu corpo desmoronasse. A sua vontade não podia quebrar. O corpo tem limites, mas não o espírito, o seu mestre assim lhe tinha dito uma vez. Se o seu corpo não agüentasse, ele nada poderia fazer, mas se a sua vontade não resistisse então aquela seria uma traição imperdoável. Não seria digno da confiança em que nele havia depositado o Homem a quem tinha jurado lealdade absoluta. Ele era o primeiro dos soldados de Cristo, não em cronologia, mas era-o no que dizia respeito ao afeto que lhe dedicava o profeta e á confiança em que nele depositava. Sem embargo, a Bernard lhe faltavam as forças e o seu valor era posto em causa.
Os pés doíam-lhe tanto que a cada passo ameaçava derrubar-se, mas seguia uma e outra vez, caminhando rumo á direção que intuía ser a correta embora pudesse perfeitamente estar a andar em círculos. Ou pior ainda, para trás.
A cada segundo o seu corpo importunava-o com um pedido incessante de água, mas ele recusava-lhe o exigido uma e outra vez.
Nessa terceira noite, caminhando entre as dunas do deserto, banhado na escuridão mais profunda, Bernard sentiu-se observado. Essa sensação permaneceu incomodando-o durante horas até que o som do vento levantando a areia se confundiu com um murmuro, mas o solitário caminhante, de pés feridos, olhos injetados em sangue e pernas castigadas incessantemente por uma caminhada inumana, não deteve o seu passo até que por sua vez esse murmuro se converteu num sussurro que provinha da escuridão.
Uma voz sinistra e andrógina cercou-o como um mar de chamas, e embora este cerco fosse invisível, Bernard sentiu como o dominava e o encurralava.
O vento soprava mais forte que nunca e criava a partir da areia redemoinhos quase invisíveis que se engrandeciam e se multiplicavam à sua volta até ameaçar envolvê-lo. O vento batia violentamente na sua cara, e foi obrigado a curvar-se e assentar bem os pés na terra para não perder o equilíbrio, porque agora estava a ser castigado pela força do vento que o desafiava a manter-se em pé, e maltratado pela areia que arranhava a sua pele de forma dolorosa.
Na sua frente formou-se uma enorme duna e viu como no seu cimo aparecia um vulto.
O vulto desceu pela duna lentamente enquanto os sussurros se intensificavam á sua volta e podia distinguir como agora podia observar uma infinidade de pequenos vultos que o rodeavam por todos os lados.
Mas eram apenas sequazes do grande demônio que se aproximava e o qual revelou a cara levantando o capucho que a cobria. Estava vestido com uma longa capa negra e sua face era, como a sua voz, andrógena, e tinha uma tonalidade distinta á dos seres humanos. Era completamente branca e refletia o luar, ganhando uma tonalidade algo prateada. Embora tivesse olhos e boca e nariz e orelhas, não tinha sobrancelhas nem cabelos nem qualquer pelo e os olhos eram bolas negras, dando a impressão de que o demônio não tinha olhos, ou que os seus olhos eram a própria escuridão do deserto. Mas esses sinistros olhos eram intensos como nenhuns outros e o olhar do demônio queimava e debilitava Bernard, que não o podia encarar, nem já manter-se de pé na sua presença.
“O teu Deus abandonou-te.” O Demônio falava uma língua que não podia ser falada por nenhum mortal e que se assemelhava a um terrível lamento, vindo do mais profundo lugar da mais atormentada alma. Mas era uma língua entendida por Bernard. Era uma língua inventada pelo ser mais obscuro para comunicar-se com seres de escura natureza.
“ Mas não desesperes guardião porque outro Deus te reclama.”
Os vultos que rodeavam Bernard se aproximaram e o agarraram com as suas garras e ele pôde observar como não tinham forma humana ou animal, era uma forma demoníaca e não orgânica e não tinham cara, tinham somente escuridão como semblante e vestiam também capuzes e capas negras. O sangue jorrou quando as inúmeras garras agarraram Bernard e perfuraram os seus braços e as suas pernas, e o içaram no ar.
Por mais que se debatesse, a resistência era inútil, pois estes seres que não superavam o metro e meio tinham uma força descomunal e as suas garras eram afiadas e furavam a sua pele como manteiga, e quanto mais se tentava libertar, mais o lastimavam. Quanto mais mexia os braços tentando libertar-se das suas afiadas garras mais elas o feriam. Estava completamente dominado.
Bernard viu como o Demônio fazia uso das suas artes demoníacas levitando até colocar-se a uns escassos dois centímetros dele, sobreposto ao seu corpo, suspenso no ar, em posição horizontal. Sentiu o seu hálito putrefato e como os seus olhos vácuos sugavam o seu espírito, e a esperança que ainda lhe tinha restado até àquele momento. “O Deus das trevas reclama o seu filho. Príncipe negro, é hora de regressar ao teu domínio e cumprir a tua tarefa.”
“Jamais!” respondeu Bernard. “O meu senhor é o senhor da Luz, tu és o seu Inimigo.”
Acto contínuo, uma dor excruciante tomou conta do impotente Bernard enquanto a escura criatura agora utilizava as suas garras para abrir-lhe a barriga e revolver-lhe os intestinos. “Se não cumpres os meus desígnios posso mostrar-te novas formas de sentir dor, formas mais intensas, formas mais eternas. O teu senhor é Lúcifer.”
A voz diabólica ressoava dentro da sua cabeça incessantemente enquanto sentia como O Demônio entrelaçava os seus intestinos, puxava-os, cortava-os e voltava a uni-los, e a dor só não o levou a desmaiar por alguma arte demoníaca exercida pela criatura, porque nenhum homem poderia agüentar aquilo sem perder a consciência.
Entretanto Bernard repetia incessantemente, o mais rápido possível, mas apenas em pensamento, as palavras “Jesus Cristo é o meu senhor.” Agora os seus gritos de dor já não podiam ser contidos e ecoavam pela imensidão do deserto, mas não deixava de repetir para si, na sua mente, essas palavras “Jesus Cristo é o meu senhor”, agarrando-se a elas como se agarra um náufrago a um pedaço de madeira flutuante que é a única coisa que o separa das profundezas do mar.
Este processo durou alguns minutos, mas Bernard não cedeu, e por mais que o Diabo revolvesse as suas entranhas, por mais que o Demônio o convencesse de que deveria servir a Lúcifer, enquanto brincava com os seus intestinos como plasticina, mantendo-o vivo e consciente com as suas artes escuras, Bernard continuou repetindo as palavras “Jesus Cristo é o meu senhor.” Converteu-as num amuleto, e o Diabo finalmente se convenceu de que não lhe podia tirar aquele amuleto. Apesar da tortura, Bernard estava protegido pela sua fé.
Então o Diabo mudou de tática e insultou e difamou Jesus Cristo incansavelmente o melhor que pôde, com uma inteligência e uma maldade superiores ás de qualquer homem nascido ou por nascer, mas Bernard continuava repetindo para si mesmo as mesmas palavras “Jesus Cristo é o meu senhor”.
Por fim, cansado, o Diabo ordenou aos seus sequazes que baixassem o torturado e o dispusessem na postura de um homem ajoelhado, porque Bernard não podia já mover-se. Quando os Demônios o deixaram cair um pouco para a frente, todas as suas entranhas se verteram sobre as areias do deserto mas ele não emitiu nem um som, nem sequer um gemido, e enquanto o seu corpo vazio se mantinha imóvel, a sua mente delirante não parava de reproduzir as palavras “Jesus Cristo é o meu senhor.”
O Diabo, compadacendo-se da sua vítima ou simplesmente agora convencido que era inútil continuar, aproximou-se lentamente, observou-o durante alguns instantes e finalmente, com um gesto rápido e poderoso, arrancou-lhe o coração do peito.
Mas mesmo agora, nas mãos do Diabo, o coração não parava de bater, não parava de bombear, não sangre, mas pura vontade, a mesma vontade inexorável que havia convertido Bernard no preferido de Cristo, a mesma vontade que o tinha levado a percorrer a senda da morte com uma fé cega no seu senhor, a mesma vontade que o tinha protegido das artimanhas do Diabo e lhe tinha permitido manter a sua inabalável fé.
O corpo de Bernard, outrora um corpo bonito e perfeito, era agora um saco vazio, com as entranhas derramadas e um buraco no lugar do coração. E a sua cara era a cara da morte, sem expressão, sem vida, sem movimento. Mas os olhos conservavam o brilho, que parecia aumentar agora em uníssono com o coração que batia mais e mais rápido e para o qual o Diabo olhava atônito. Embora fora do corpo, o coração batia em velocidade crescente. E as palavras, até então clausuradas na sua mente, saíam agora pela boca do castigado Bernard, em voz alta, cada vez mais alta, mas não era Francês nem Espanhol a língua em que falava, era a língua em que tinha falado o Diabo. Mas as palavras eram as de sempre, palavras de luz envolvidas pelas trevas, “Jesus Cristo é o meu senhor.”
O Diabo mirou incrédulo nos olhos flamantes de Bernard, que desta vez lhe devolveu o olhar, um olhar que refletia a mais profunda determinação. Já não eram as diabólicas artes mágicas do Diabo que o mantinham com vida, era a sua incrível vontade de sobreviver.
O corpo então prostrado elevou-se com uma velocidade e uma energia tais, que os demoníacos seres servis que o seguravam foram atirados dezenas de metros pelos ares.
Com uma força sobre-humana Bernard perfurou o peito do Diabo com a sua mão direita e, sem deixar de olhar dentro dos escuros olhos do diabo, arrancou o negro coração do peito do demônio e viu como a maligna criatura perdia o equilíbrio e se desmoronava sobre a areia do deserto. Acto continuo, levou o negro coração á boca e devorou-o, e quando terminou, apanhou o seu próprio coração que agora estava caído na areia, mas continuava a bater incessantemente, e também o devorou.
E o Diabo viu como Bernard lhe virou as costas e se dirigiu ao lugar onde estavam esparramadas as suas tripas e como as apanhou e também as devorou, e enquanto o fazia, nasciam-lhe duas enormes e majestosas asas prateadas. Quando terminou de comer as suas próprias entranhas voltou a dirigir-se ao Diabo na língua do mal, mas era agora mais alto do que antes, e mais forte, e os seus olhos já não eram verdes, eram agora da cor do fogo e o seu olhar era mais determinado do que nunca e as asas elevavam-se dois metros no ar como um símbolo de autoridade nos dois mundos, na terra e no céu e o Diabo temeu tal criação da Vontade, temeu que o pudesse destruir quebrando mais uma vez as leis do universo, mas tal não seria possível nem sequer para o guardião do filho de deus. Bernard aproximou-se do Diabo e apenas lhe disse, na sua porte majestosa, ao seu desafiante vencido “Não subestimes o Poder da Vontade” e levantou vôo, rumo ao céu estrelado, rumo á lua prateada, rumo a Deus.
5 comentários:
Olha Bruno acho que este teu texto tem coisas muito boas e coisas muito más... Continuas a espandir demasiado certas partes e a repetir bastante algumas ideias. Noutros momentos sinto que explorar mal a força da acção mas de uma forma geral o que eu acho é que isto é demasiadamente um esçoço e tem pouco do que deveria ser o texto no seu arranjo final.
Certos momentos da acção que descreves são realmente poderosos e interessantes mas depois perdes a tenção do leitor quando te pões com certas imagens ou ideias que apesar de completarem o quadro são um bocado irrelevantes e quebram o ritmo da situação que exploras... Acho que se nota muita falata de cuidado da tua parte porque eu penso que podia reescrever esse texto apenas com base nas tuas ideias e torná-lo melhor e mais fluído e eu estou farto de saber que tu escreves muito bem e por isso não entendo porque não te dedicas mais ao leitor - tens que ser mais amigo do leitor, tornar as tuas palavras mais simples por vezes e fazer com que cada frase cumpra a sua missão... Tens um ou outro ponto no texto em que de facto dá a sensação que se alguém competente transformasse isso que contaste num filme seria uma cena muito interessante, o problema é que neste momento os teus descuidos obrigam o leitor a fazer uma leitura e correcção ao mesmo tempo... De certo modo tenho sentido que já não estás tão à vontade com o português talvez porque usas muito o espanhol neste momento por isso tens que ler mais, ler livros portugueses e tens que ler-te a ti próprio porque a forma como escreves embora não seja muito confusa é um pouco desorganizada... Saltas daqui para ali, às tantas não se percebe se estás a ser apenas um narrador ou se estás a tomar posições quase ideológicas... Percebes o que te estou a dizer?
Sinto que há muito aí de valioso mas sinto que está subaproveitado e que tu vais ter que te esforçar para tornares os teus textos mais homogéneos e interessantes para que possas escrever muitas e muitas linhas de texto sem estares a castigar o leitor... Neste momento custou-me um pouco ler o teu texto até ao fim porque a acção não está bem narrada, é frenético o texto e as ideias a surgirem em catadupa mas a acção é quase lenta...
O final, a conclusão é fortissima mas não salva o resto.
Epah..Eu acho que o vargas não está nada aser um bom ou mesmo um melhor amigo...Que raio de amigo escreve tanto??Eu sei que ninguem é obrigado a ler, mas gostava de participar um bocado e conseguir ler todos os posts e em todos puder comentar, mas ò Vargas não foste nada amiguinho...Isto é grande para caraças, mal escrito ou não, com desvio ou devaneios pelo meio, acho muito grande para um amigo teu ler...
O teu amigo O Macaco
Caro colaborador Vargas(posso trata-lo assim???),
Desde já venho aqui retificar as minhas intenções do meu comentário...
O meu comentário não consistia numa critica, não era uma critica nem construtiva nem desconstrutiva, era simplesmente e como o titulo aqui se refere, um comentário...
Apenas comentáva em tom de graça o facto do teu texto ser grande, eu não o li, nem li o comentário feito pelo Diogo, nem mais ou menos o teu cometário ao comentário do Diogo, li sim o teu comentário ao meu comentário que te vai obrigar a ler o meu comentário ao teu comentário, sobre o meu comentário sobre o teu texto/post...
Não duvido que o texto esteja bom, tambem não duvido que devaneis e te expandas como diz o Diogo, mas eu faço o mesmo quando escrevo e calculo que a tua "macacada" seja bem menos complexa que a minha que siga mais o seu fio condutor e faça algum sentido...
Venho aqui fazer as pazes...
Referi-me a ti como meu amigo, pegando na temática do blog, o melhor amigo, não te querendo ofender e não pondo de parte que não serei teu amigo( não o sou)
Quanto à minha origem, será um pouco indiferente, porque não me conheces, nem eu a ti, por isso seu eu te disser que sou o Chico(que não o sou) tu ficarás na mesma, correcto?
Peço imensas desculpas se de certa forma te ofendi e prometo que um dia lerei o teu texto e ai o criticarei...Ou darei o meu comentário pessoal...
Até lá???Muitas Macacadas....
Sou o André Sobral, A.K.A. GiGi.
(arruinou a minha identidade O Macaco)
olha bruno prometo ler isto quando tiver mais tempo... mas já sei que vocês postam (lol..verbo giro..) a uma velocidade louca por isso vou perder este texto de vista... :/
enfim... pode ser que me lembre de o procurar daqui a uns tempos...
um abraço.
Enviar um comentário