quinta-feira, julho 20, 2006

Caminhos

Os orientais acreditam que não existem caminhos pré-concebidos, e sim caminhantes que escolhem os seus próprios e autênticos caminhos. A questão é, tens o valor necessário para assumir a responsabilidade de decidir o teu próprio destino?
Ás vezes eu pergunto-me se terei a força suficiente para o fazer, porque não há nada como ser criança e deixar que façam tudo por ti, ou adolescente em que o único que tens que fazer é queixar-te de tudo á tua volta e gerar no menor período de tempo possível o maior numero de complexos possíveis para infernizar a tua vida futura e culpar os teus pais de tudo. Mas ser adulto é mais complicado. É mais complicado porque temos que assumir responsabilidades que não tínhamos até então.
Bem, o que eu acho é que tudo depende do caminho que seguimos, que decidimos seguir ou que nos é imposto. E a Vida, o Destino, o Fatum, como queiras chamar-lhe, ás vezes prega-nos uma partida e nos obriga a superar certas provas para as quais as vezes estamos preparados e as vezes não. Mas cada um de nos temos o nosso destino, e as nossas alegrias, e as nossas obrigações, temos as nossas qualidades e defeitos, fazemos coisas boas e más, ás vezes somos obrigados a carregar uma cruz enorme toda a vida, e ás vezes temos mais sorte. É normal que todos cometamos erros, porque afinal, todos somos humanos e quando crescemos um pouco começamos a perceber que os nossos pais não são deus e deusa, que são pessoas e que têm defeitos como nós os temos , e são débeis e choram e riem como nós o fazemos e são tão carentes, tão necessitados que alguém olhe por eles como nós precisamos que eles olhem por nós. E
Como saber o caminho a seguir, como sabemos o que devemos fazer e o que não devemos fazer? Suponho que esteja sempre comigo, aqui dentro, um pouco dividido entre ética e intuição, o que é que nos destaca, o que é que nos arrasta para fora desse turbilhão em que se encontra a multidão e a dirige a uma velocidade cósmica através de incontáveis eras e nações e paisagens e livros de história á normalidade, ao anonimato, á mediocridade. E quando morres já ninguém se lembra de ti e nenhum Deus pode resgatar-te nas trevas, não como os deuses egípcios que dotam de nomes a homens e mulheres que viveram há 3000 anos atrás e que são hoje descobertos pelos arqueólogos e os egiptologos sabem os seus nomes. Mas alguém se lembrara do meu nome dentro de 3000, 300, 30 anos depois da minha morte?
O que distingue a um homem da multidão? Será preciso ser uma ovelha negra num rebanho de ovelhas brancas ou uma ovelha branca num rebanho de ovelhas negras? O que distingue a multidão de mim? No livro de Eiji Yoshikawa chamado “Musashi”, o protagonista, que dá nome á obra, tem uma conversa interessante com um dos seus aprendizes. O jovem aprendiz elogia em sua presença um conhecido e honorável samurai e afirma querer ser como ele no futuro. Musashi, embora também admirasse dito Samurai, aconselha o seu discípulo explicando-lhe que se ele quer ter exito na vida e na morte não deve pretender ser imitador de nenhum hombre, por melhor que seja. Para ser grande em vida e recordado na morte um homem deve tomar como modelo a ele proprio unicamente, ser fiel a ele mesmo e criar uma unica e insuperavel personalidade. O caminho rumo à imortalidade não reside na cópia, reside na originalidade.
Embora seja um defensor da democracia como o melhor sistema político até hoje idealizado, sinto-me obrigado a admitir que a maior parte das vezes a maioria está errada, porque a maioria não vê mais além.
Não foi por acaso que Giordano Bruno e Joana D´arc tenham termiado na fogueira, que Galileu quase tenha tido o mesmo destino, não fora pela sua “reconsideração” forçada, que muitos dos quadros de Botticceli tenham sido tachados de vergonhosos apesar da sua beleza, que Nietzche tenha sido um incompreendido toda a sua vida para ser elevado á categoria de génio depois de morto, que Sócrates tenha sido condenado a beber veneno para morrer juntamente com a sua filosofia (o que como sabemos apenas serviu para imortalizar a sua figura) ou, porque não referir-lo, Cristo foi submetido a uma terrivel flagelação sem ter cometido crime algum, e crucificado como o eram assasinos ou violadores, ao passo que se perdoava a Barrabás.
Os ousados e os génios são os primeiros a ser atacados pelas massas movidas pela inveja. Os ordinários não suportam os extraordinários porque nunca serão como eles. E por mais que queira, nao posso modificar isto, ninguem alguma vez poderá. Este padrão se observa desde sempre, e não dá mostras de retroceder e muito menos desaparecer. Resta-me então dizer a todos os ousados e desesperados que lhes espera um caminho difícil. Mas não direi aos inconformados que se conformem, direi-lhes que enfrentem os riscos e as adversidades ou se arrependerão para sempre.
Sei o que é ter medo de arriscar, mas esse medo é algo extremamente natural, e aqueles que arriscam sem medo são temerários,e os temerários são insensatos, e os insensatos são débeis e costumam perder quando arriscam. Mas aquele que arrisca com medo é prudente, e o prudente costuma ganhar quando se decide a arriscar. O prudente tem medo mas vence o medo para correr um risco justo, porque os grandes logros são inalcançáveis para aqueles que não estão dispostos a correr riscos. Os grandes logros exigem o carácter que falta aos medrosos.
Ao longo da nossa vida temos duas opções, o individualismo e a uniformidade. O primeiro requer coragem e força de vontade, o segundo requer conformismo.
A sociedade pressiona, invariavelmente, cada individuo a escolher a uniformidade. Aqueles que optam pelo individualismo são obrigados a romper, a superar ou simplesmente a aguentar essa pressão. A uniformidade representa segurança, o individualismo representa risco. Porque a segurança é muito mais aliciante que o risco para a grande maioria das pessoas e principalmente no que diz respeito aos seus entes queridos, a familia costuma ser um foco de pressão crucial no sentido da uniformidade.
É preciso entender-se que quando falo em sociedade não me refiro a nenhum monstro de sete cabeças que tem por único desejo comer-nos ao pequeno almoço. Me refiro á comunidade onde nos inserimos. A familia, que só quer o nosso bem, regra geral, faz parte dessa mesma sociedade tanto quanto os nossos maiores detractores. Sociedade é comunidade.
Normalmente, como disse anteriormente, a família constitui um foco de pressão crucial que aponta rumo á segurança, á uniformidade, é como a primeira linha de defesa da uniformidade, ou se preferirmos, é a manifestação mais próxima do pensamento comum, social. Pelo nosso próprio bem, as nossas famílias sempre procuram que não sejamos demasiado diferentes da maioria, e que respeitemos o desejo da comunidade, porque isso implica menos riscos para as nossas vidas.
Muitas vezes nem sequer é nosso desejo entrar para uma faculdade depois de terminar o secundário, mas se somos de classe média ou alta, invariavelmente ser-nos-á incutida a idéia de que não existe outra opção de futuro que não essa. Em todo o mundo existem centenas de milhares de jovens que entram todos os anos para a Universidade, e talvez um quarto deles, ou mesmo um terço, não considera sequer uma outra opção antes de ingressar num curso superior e freqüentemente esses jovens não têm a menor idéia do que querem estudar e simplesmente escolhem estudar Direito, Administração ou Engenharia porque são cursos com saída no mercado de trabalho.
Na actualidade, na maioria dos casos o acto de entrar para a universidade é um acto uniforme, guiado por pressão externa, e não um acto consciente. Eu sei do que falo, pois estou dentro dessa maioria juntamente com a quase totalidade dos meus amigos.
Não é que escolher seguir um caminho acadêmico seja um martírio irreversível, muito pelo contrário, é em muitos casos a melhor opção de futuro em em muitos outros até constitui a melhor opção de presente, mas se é um acto forçado, na melhor das hipóteses é uma boa decisão tomada de forma errada.
Sei que em grande medida isto é irreversível, até porque a maioria dos jovens não estão de facto qualificados para tomar as suas próprias decisões, agradecendo que seja a sociedade e mais concretamente os pais a decidir o rumo das suas vidas por eles, mas existem outros jovens que sim são capazes de tomar as suas próprias decisões. A estes jovens deve aconselhar-se, não induzi-los ou seduzi-los, mas apresentar-lhes as melhores opções possíveis e deixá-los escolher a melhor para eles.
Porque devemos seguir todos o mesmo caminho, porque não podemos preservar a nossa individualidade, não é esse um direito que nos assiste, não é esse um dever que nos vincula? Porque temos tanta pressa para acabar a faculdade se hoje em dia a própria sociedade, o próprio mercado de trabalho se auto-inventa a diário para manter-nos ocupados mais e mais anos antes de entrarmos em activo no mercado laboral? Porque hoje em dia e tudo mais complicado que antes, que no tempo dos nossos avós, até mesmo que no tempo dos nossos pais. Para triunfar no mercado de trabalho é preciso fazer não sei quantos cursos, pós-graduações e mestrados, num mundo repleto de burocracias e faminto por diplomas. Os jovens muitas vezes vivem na casa dos pais até aos 30 anos ou até mais, e muitas outras vezes são dependentes financeiramente, embora tenham saído de casa, até uma idade avançada.
A maturidade total só pode ser atingida quando se atinge a maturidade econômica, e esta, constitui uma barreira semi-inflanqueável nos dias de hoje.
Então, volto a perguntar, para quê tanta pressa? A que destino nos encaminhados com tanta impaciente celeridade? A entrar num emprego mal pago, a hipotecas de 40 anos de duração, a empréstimos para toda a vida que nos convertem em escravos dos grandes senhores bancários? A viver a mesma vida que todos os outros, a casar e ter filhos e assentar de uma vez? A acabar com as nossas vidas o mais cedo possível? Á rotina e á monotonia de um escritório de advocacia? É isso que ansiamos com tanto desespero? Mas e depois, quando o conseguimos por fim, quando estamos firmes no nosso emprego de sempre, que só nos falta dez anos para acabar de pagar a hipoteca e fazemos a mesma coisa todos os dias o que e que fazemos? Quando mandamos os nossos filhos para a faculdade ansiamos voltar àqueles tempos loucos em que tudo era incerto? O que é que nós queremos realmente, talvez a resposta seja a de sempre, desejamos o que não temos, quando o obtemos, deixa de ter graça.
Mas por mais irracional que possa parecer, eu entendo perfeitamente essa ânsia de acabar de uma vez a maldita faculdade e arranjar o primeiro emprego, não depender dos pais, pagar a nossa comida, a nossa casa. A auto-suficiencia exerce um atractivo bastante forte numa mente madura.
Porque nunca poderemos ser realmente livres se não somos totalmente autónomos, se não ganhamos o nosso proprio dinheiro, se dependemos permanentemente de alguem para pagar as nossas contas, e assim funciona o mundo capitalista. O dinheiro é liberdade.
Mas independentemente disso quao justificada é esta pressa de que falava? Esta pressa para acabar a faculdade, este medo paranóico que incutimos desde cedo aos jovens por perder algum ano escolar?
Porque afinal, no occidente vivemos uma média de oitenta anos qual e a diferença que faz um misero ano?
Porque a faculdade que escolhemos nos condiciona para o resto das nossas vidas, não sera bom pensar bastante a respeito antes de tomar uma decisão? Pensem a respeito, e pensem-no bem. Em Portugal é práctica muito invulgar que se use o “gap year”, ao contrario do que acontece em Inglaterra.
Depois de passar varios anos da nossa vida condicionados a esse unico caminho que e a educação fundamental, quando a concluimos e chega a hora de passar para a proxima fase é conveniente parar um tempo, para ganhar percepçao de umas quantas coisas. Claro que existem pessoas , principalmente os chamados “marrões”, que não podem conceber outra coisa, terminado o liceu, que não seja começar os seus estudos universitarios, mas a maior parte de nós, precisamos de tempo para pensar o que é que queremos realmente fazer com a nossa vida e em caso de que decidamos entrar na universidade, precisamos de ter a certeza do que e que queremos fazer.
As vezes terminamos o secundario e nem sequer conhecemos minimamente o mundo fora daquele universo particular que é o liceu. O mundo e grande, existem tantas oportunidades, simplesmente temos de perder algum tempo para entender isto.
Talvez entendamos que devemos seguir os nossos proprios caminhos, ate mesmo longe de tudo o que conhecíamos.
E talvez seja isso de que eles tenham medo, talvez os nossos pais tenham medo de que se nos é dado algum tempo para reflectir, chegaremos à conclusao de que precisamos seguir o nosso proprio caminho, longe deles, perto de nós.
No fundo, todos queremos o mesmo, eles e nós, embora tenhamos visoes diferentes. O certo é que se nós queremos ser felizes resta-nos lutar com todas as nossas forças e muitas vezes até contra o proprio mundo, para fazer valer as nossas convicções. Porque todos queremos ser felizes mas so alguns de nos o conseguimos e somos aqueles capazes de lutar para consegui-lo.
Conquistar a felicidade não é nada fácil, tal como não é fácil ganhar a nossa propria liberdade. Porque no principio, quando empreendemos o caminho inevitavel rumo a liberdade, quando ainda nos aguardam tantos obstaculos, somos escravos de muitas coisas, somos em muitos aspectos prisioneiros. A dependencia economica e so uma das correntes que nos prendem, pois existem outras e frequentemente mais dificeis de ser quebradas.
A dependencia afectiva é outra dessas correntes. Desprendermo-nos dos nossos pais, dos nossos amigos, dos nossos avos, e de toda a familia em geral é muitas vezes uma tarefa bastante complicada mas necessaria rumo á liberdade e necessario para obter a felicidade.
Quantas pessoas não conheço, de 20, 21 e até mais velhas que precisam da autorização dos pais para fazer seja o que for. Parece ridículo mas é uma realidade. Hoje em dia, as pessoas demoram tanto em desenvolver-se como pessoas autonomas que muitas vezes chegam aos seus 25, 30 anos e ainda não sabem tomar uma decisão sozinhos, principalmente no caso das mulheres.
Os vinculos familiares e as boas amizades sempre serão importantes durante todo o trajecto das nossas vidas e se temos pessoas de confiança a nosso lado, melhor do que se estamos sos. Mas não podemos confundir vinculos com dependencias, os primeiros fortalecem, as seundas debilitam.
Na mãe natureza os animais preparam as suas crias o melhor possivel para que estas possam sobreviver. Quando estas adquirem as faculdades minimas para sobreviver por sua conta devem prosseguir o seu processo de aprendizagem sozinhas ou, caso contrario, atrofiariam as suas capacidades nao sendo capazes de desenvolve-las devidamente debaixo da tutela paterna. De tal forma e isto verdade e o sabem os animais que sao obrigados a abandonar as crias se estas não se resolvem a deixar a sua potestade voluntariamente quando chega o momento devido, e a mesma atitude devem adoptar, quando necessário for, os pais humanos. Sem embargo, o que costuma acontecer é totalmente contrario a este principio. Os pais acabam por interferir negativamente no processo de emancipaçao dos filhos, nao percebendo que, dessa maneira, apenas lhes colocam entraves á sua demanda pelo êxito, que um empreende desde o momento do seu nacimento até ao momento da sua morte, de forma automática.
O mesmo se aplica a respeito das relações amorosas. Aquele que encontra na namorada força, apoio, amor e felicidade só pode ganhar com isso, mas aquele que vê na namorada um freio, uma barreira que o separa dos seus amigos, algo que o impede de viajar porque não se pode separar muito tempo dela... esse entra numa dependencia que o tornará fraco e pequeno.
As pessoas que amamos podem ajudar-nos quando precisamos, a sua propria existencia por vezes nos resulta um balsamo magnifico, a felicidade não e algo que aparece do nada, ela surge quando reencontramos um ente querido, quando temos a possibilidade de ver os nossos filhos crescer, quando fazemos o amor com o amor das nossas vidas. Mas depender das pessoas para viver é limitar as nossas possibilidades, porque a grande trajectoria das nossas vidas e algo unicamente nosso, e algo individual, e muitas vezes ao longo dessa trajectoria amplia, teremos que percorrer o caminho em solitario, sem ninguem para ajudar-nos.
Mas são as correntes que aprisionam o nosso pensamento, aquelas que constituem o maior atentado á nossa individualidade, à nossa unicidade, estas correntes que aprisionam o nosso pensamento nos privam da liberdade como nenhuma outra. A dependencia ideologica consiste fundamentalmente na sujeição aos prejuizos, á cultura natal, ao preestabelecido. Consiste na convicção de obrigatoriedade de fazer o que todos os outros fazem.
Esta é uma prisao invisível, de tal forma que muitas vezes as pessoas nem sequer se apercebem de que estão presas.
E é esta invisibilidade a maior força desta prisao. Um prisioneiro que nao sabe que esta prisioneiro nao tem logicamente a menor vontade de libertar-se. Mas a verdade é que ele está preso e por isso esta limitado e embora nao tenha consciencia disso, não é livre. A melhor analogia é o filme Matrix, que ilustra esta realidade á perfeiçao. As pessoas estão tão dependentes da Matriz que inclusive lutarão para protegê-la, e caso sejam libertadas, não estarão já aptas a adaptar-se á realidade e por isso farão o possivel para voltar ao mundo ficticio e caso nao o consigam acabarão loucos.
Morpheous pergunta a Neo se não teve sempre aquela sensação, se não sentiu sempre um espeto na mente, se não soube sempre, embora nao tivesse como prová-lo, de que algo estava mal com o mundo, de que o mundo parecia um sonho, como se não fosse real.
Embora esta frase de Morpheous esteja inserida num filme, num contexto fictício, ela pode perfeitamente ser aplicada fora desse contexto, no nosso contexto cotidiano, o que podemos denominar de real.


"Caminhante, não há caminho, o caminho é feito ao andar. Ao andar se faz o caminho, e ao olhar para traz, se vê a senda que nunca se vai voltar a trilhar. Caminhante, não há caminho, somente rastros no mar."
Antonio Machado

Sem comentários: