quarta-feira, agosto 21, 2019


Talvez tudo seja sinal da fome que passámos. É de imaginar que até a carne das gaivotas se tenha comido, e a dos corvos, porque não? Nem essa seria de desaproveitar. O bico destes terá sido usado para se inscrever o nome na pedra até se lhe esquecer as letras. Que dores no juízo nos dá ainda. São comuns as doenças raras nas vidas encostadas ao mar. E o que foi das garrafas, de todas as súplicas que nunca ninguém leu? Ter ensinado um povo destes a escrever, uma língua que sempre se falou mal e se escreve ainda pior, não podia dar outra coisa que um desastre grosso. Ao francês foi-se buscar uma certa finura de modos que disfarçava, mas a rudez tem algo de implacável. A vida literária portuguesa, quando se passa além dessas alas iniciais dos maluquinhos de entreter, essas vaidades mecânicas que parecem funcionar a moedas, é uma insânia. Aí sim começam a ouvir-se os gemidos nos fundos de um hospício que se criou por inércia. Uns tipos amarrados a camas de ferro, exorcismos abandonados a meio, sombras de pé em quartos podres, salas cheias de troféus e carcaças mal empalhadas, diplomas cobrindo as paredes. O talento é uma péssima desculpa, a convicção esse piano a giz desenhado no soalho. Cada um trepa pela imaginação para ouvir soar mais qualquer coisa, grandes concertos se dão por aqui, como no jardinzito pardo os heróis do guelas, os deuses do pião, de bolsos rasgados andam numa agitação estéril, pobres tarados de roda de si mesmos. A nossa obra capital há-de ser uma enciclopédia de todas estas disfunções que se fingem tão encantadoras, nobres, para depois se instalar essa épica mesquinha, as incuráveis doenças inventadas, o teatro sórdido e infinito. Na cantina, até os ratos participam, em troca de miolo de pão, nas recriações dos episódios mais negros, a própria história atacada pela peste. Os rapazes aborrecem-se com as longas cartas da amada que eles mesmos pagam a um, com um pouco mais de astúcia pornográfica, para que as escreva e lhes enderece, e há o vento que não nos deixa, como uma consciência comum, tão ressentida. Despedem-se uns, vidas inteiras a agitar um lenço sujo, e outros perdem-se em eternos preparativos, formam-se tripulações; ao leme temos sempre um sujeitinho cadaveroso que finge avistar índias e brasis, recitando algum salmo ulceroso a um papagaio de cera, ao lado um retardado ora pára a benzer-se ora toca insistentemente as duas notas que sabe num órgão de igreja como se fosse lembrar-se do resto, outro desenha nuns papelinhos a sua ilha, e não tarda volta a insistir que tem lá escondido um grande tesouro. Sobre as cabeças, a esparvoar, o urubu-vigilante, tirando medidas à vista grossa, vai calculando a ordem em que poderá reclamar-nos os ossos para se enfeitar, e há cada historiador mais taralhouco e aldrabão, como este, coitado, arrastando a sua saca com livros, empobrecendo-os com a sua leitura gaguejante. E ninguém se lembra de melhor fim do que dizer que a coisa continua e que a morte tem muita pena, mas que nem ela quer ter nada a ver com isto.

terça-feira, agosto 20, 2019

O Livro e o Digital



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segunda-feira, agosto 19, 2019

Contra los nuevos poetas


Berardinelli lo tiene claro: ya no hay poetas publicables. Dice que la lástima es que se abran colecciones de poesía que después no saben con qué llenarse. Entonces llega el amigo, y el amigo del amigo, después el que tiene poder; más tarde el que insiste, el que te lo hará pagar muy caro y el que amenaza con suicidarse. Mientras, la crítica de poesía o bien se lo traga todo, o bien guarda silencio. "Para escribir el 90% de los poemas italianos que circulan hoy en día, no se requiere ninguna cualidad". 
Por eso todos somos poetas. "El pueblo ha tomado el poder poético, ¡hurra!", ironiza de nuevo. "Todos somos libres de crear, de expresarnos y de publicar. Además tenemos derecho a ser considerados poetas si lo deseamos con mucha fuerza, si estamos firmemente convencidos de serlo (...) independientemente de la calidad, el valor o el interés de lo que hayamos escrito". Lo llama "populismo poético": un inocente lector perseguido por veinte poetas que reclaman el "derecho a que se los lea". 
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Hans Magnus Enzensberger determinó que la poesía moderna “no sólo hay que conocerla, sino también criticarla: ya no es posible separar la creación de la crítica”. 
Los motivos de esta necesaria y continua lectura crítica poética son producto de un gravísimo problema actual. Nos advierte Berardinelli: “Si en la actualidad hay tantos poetas, se debe sobre todo al hecho de que creen que la poesía es un género literario sin reglas que no requiere que nadie tenga algo que decir (…) tanta libertad mal entendida ha liberado la poesía de un público de lectores y del juicio crítico, transformando en una tierra de nadie de libre acceso a un género que antes era considerado arduo hasta el ascetismo”.
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“El enemigo más temible e insidioso de la poesía es la propia poesía, o más bien, su idea, su mito, su tradicional nobleza: un valor que, sin razón aparente, continúa garantizado per se como excelente. Mejor aún: creo que en la actualidad los poetas se han convertido en los verdaderos enemigos de la poesía, escribiendo lo que escriben y poniéndose bajo el amparo y la protección de la nobleza de este género literario”.
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“hoy el acceso a la poesía se ha liberalizado y democratizado. No hay maestros más que nada porque no se los tolera (…) A todo aquel que osa emitir juicios críticos y hacer comparaciones con el pasado se le mira mal, se le considera inoportuno, envidioso, rencoroso, enemigo de la vida y de la creación”
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“ser amable con todos los poetas pone en peligro a muchas personas que no consiguen ni leer ni hacerse leer. Es el mal público, o la carencia de público, lo que vuelve mala o insignificante a la poesía”.

Querem um debate alargado?


Os poetas têm infortúnios muito seus, parece que caem por uns buracos que se abrem especialmente para eles. Depois é ver os cartazes afixados lugubremente pela cidade: desaparecido este no mês de tantos, àquele ninguém põe os olhos em cima faz anos, e os respeitáveis que ainda restam vivem fugidos, e, como aparições, pôr-lhes em cima os olhos é já notícia. Alguns distraem-se como podem da selvagem parolice e da praga de literatos espremendo o pus dos seus abcessos, vão "remexendo baldadamente nas cinzas geladas do Além", mas nisto, e até com a melhor das intenções, serve-se a oportunidade, nesta época carnavalesca, para o triunfo do pendor folclórico, e logo vem por aí o desfile dos xéxés babando sobre a memória, os soturnos sobreviventes, dando-se ares, a riscar tudo e recompor, em golpes de revisionismo em que assumem grandes protagonismos por terem guardado as migalhas que caíam da grande mesa. E, nos últimos tempos, tão chocha e desanimadora anda a coisa que se ganhou o hábito, seja truque retórico ou tique nervoso, de coçar o desgosto clamando por um debate. Venha daí essa razão controvertida, vá, como que uma insurgência das tropas na reserva, essas milícias ociosas... Só que, mal o debate é proposto, logo se vê uns pegar nas próprias fezes, e o tipo que o exigia arrepende-se quase de imediato da sua lírica entoação. Constata que o silêncio tem, afinal, uma danada razão de ser. Porque nesta terra ou se está a uma mesa com um número reservado de cadeiras à volta, e quem mastiga consegue organizar umas ideias sem estar a cuspir no prato do da frente ou do lado, ou a posição geralmente assumida é ficar de quatro, afocinhando na manjedoura. Não há grande conversa ali, mas a confusa deglutição de uma rançosa mistela farta brutos, e não se trocam informações nem noções mais profundas sobre nada. É a ceva para a fulanada, uma engorda das hipóteses que julgam ter. Assim, conspira-se fátua e inutilmente, acirram-se ódios, elevando o lume no tacho onde se adensa aquela sopa que empanturra e emburrece os estômagos. Qualquer discussão só amesquinha essa consciência minimamente dramática que cada um entretém, de si para si, nas suas ruminações. Falar alto, com verdadeiro empenho, e mesmo por escrito, é um acto masoquista. Os ecos gelam-nos. Tudo só piora a desolação. Por isso, sobre os poetas e a sua natural propensão para o sumiço, para desastres que tardam em explicar-se, só resta saudar que o destino continue a preservá-los das honrarias terrenas, dessas atenções em tudo frívolas, e de se verem festejados em tristíssimas orgias. Contando que não esteja por uma unha negra, com a exalação da morte a cercá-lo, a despertar a larica nos vermes, o poeta dá-se melhor ficando na sua, e afina mais seu canto raspando a voz na pedra das contrariedades. E depois, até o mais galaró, logo se farta desses mimos grosseiros e furta-se ao castigo de ter de se misturar, emprestar-se à ladainha dessa caterva de egos leprosos. Comece-se pelo que vai aí de raro talento abespinhado e que se pisga para não acabar na promoção pague um, leve quantos quiser dessa malta medíocre. Veja-se como se ergueu essa igreja para os desamparados das letras, onde algum pároco gemebundo dá a sua missa num atropelo de crendices e patacoadas, armado em milagreiro, a fazer bailar e saracotearem os comichosos fingidores que vêm à esmola e se ficam pelos fundos a roer os próprios ossos. E tudo isto em nome do quê? Pois de Nossa Senhora da Inspiração, é claro. Só no meio literato é que todo o pelintra dá por si a ter visões e vira um místico do real quotidiano, desata a walsar e a esfarelar uma broa prosaica em versinhos. Depois vem reclamar o seu quinhão entre os imortais. Face a isto, todo o crítico é um herege, e a sua palavra sacrílega. Que margem fica, assim, para um debate minimamente sério se o ego se sobrepõe a tudo? A partir do momento em que este serve de esteio e se enreda na obra, os dois partilham um mesmo destino, a afirmação literária torna-se uma questão de sobrevivência. O valor de um texto hoje já parece desejar ser lido menos segundo critérios literários do que à luz da declaração universal dos direitos do homem. Assim, a partir de que ângulo se pode atacá-lo? E se na poesia são mais os que sujam os papéis do que aqueles que os lêem, todo o crítico que se embrenhe com uma faca de mato por essa selva acabará apodado de facínora.

sábado, agosto 10, 2019


Não o reconhecerias mais num espelho
se já te contentas com as estrelas
o rosto enfiado numa fresta
a alimentar-se do cheiro, das voltas do ar

riem-se as regiões selvagens lá
onde a noite se mistura, e ganham forma
afiam em silêncio as armas as velhas hostes
depois do vento se quedar, ecoam incrivelmente
as dores de estômago
e tanto do que não passa nem se sacia
chupando os dedos da imaginação

ao lado uma cabeça de mármore no chão
com a voz roída retoma os disparates
e sentes a migração das forças, do encanto

detrás do nada um ofegar tão-só
as ossadas de um cavalo adoçam o pavor
da vista que nos resta
e se tivéssemos papel
arrastaríamos a descrição por vários tomos

lutamos pelo perdão de coisas que nem fizemos
e do modo como nos mastiga a solidão
aceitamos as piores visitas
descemos de ouvido o rio
enquanto no odre se enredam os cabelos de afogados

olha lá fora o que perseguem as árvores
de uma folha que chegue, um velho impresso,
a pétala de um jornal 
tiras mais que de uma boa vingança
das delicadas anotações de um tipógrafo
ou do gotejo de uma água desprezada
impressões suaves que nos quebram os ossos

a carne chegou ao peso das palavras
o idioma é um delírio atravessado por moscas
perde-se a boca encostada a um ouvido
na extrema prece de um nome
e responde um riso desde o fundo de si
a sensação de que a vida acabou
mas nos falta a convicção que a morte exige


sexta-feira, julho 26, 2019

O Paraíso dos Loucos - sobre a viagem, os viajantes e os turistas





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segunda-feira, julho 22, 2019


Mais que a falta de informação, o vazio parece crescer tornando-se respeitoso, talvez porque depreende o quanto ficou por dizer, e sendo os diários desses homens terrivelmente discretos, esgotam o absurdo daqueles dias resumindo tudo a impressões alheadas, algum comentário sobre o modo de soar dos pássaros aqui, algum devaneio um tanto frívolo não fosse a encantadora escolha das palavras, a ordem que assumem nessas tão curtas frases, com uma data impossível posta no fim, esse dia que já não viveremos com eles, embalado pelo ritmo das águas; comprei o jornal para lhos ler e fingir que o mundo, mal ou pior, continua aí, a vida remendada, e se este não chega a ser um dia belo (não há nada como a luz que lhes é devida), tem nele a sensação de um intervalo. As coisas irão certamente agravar-se, mas não para já, e por mais trivial que pareça, as palavras ainda podem ser postas para bom uso, mesmo se os jovens poetas parecem ignorá-lo, se o enfado e o desprezo são o que mais cultivam nos seus versos. As lutas melhores estão aí para ser travadas, toda a gente de um lado e ninguém do outro, e não deixa de ser aliciante não só a quantidade, mas a baixaria, o nível dos imbecis, e essas migalhas por que se debatem tanto... Se insisto em reescrever os diários é porque o pouco que dizem tem mais ouvido, e lembra-me o cuidado de Blas de Otero pra não acordar o rouxinol que dorme no gume do bisturi. Parece que oiço um deles falar enquanto apara a barba sobre o tanque, o outro a enrolar com um cuidado musical um cigarro, ando à volta da casa ou entro, tento interrogar os tão casuais objectos deixados no lugar onde se desmoronaram, atlas, herbários, a intimidade que deixa cheiro em roupas tão frias, o zumbido desses restos da história, alguma discussão, posso imaginar os últimos dias como o de prisioneiros de guerra, trocando confissões banais como segredos de Estado, que os reescreva não é para substituir ou alterar alguma coisa, mas para ouvir algo mais, nem que seja a muito custo, mesmo com fezes e sangue, com uma mão e com a outra, esperando que a luz ainda desenterre alguma linha; assim, a pobreza é uma razão, tal como esse desejo de fugir que torna irrelevantes as distâncias, depois dos maus tratos, tentando cansado a loucura, aprende-se como alguém dobrado sobre um piano riscado no soalho, a afinar a fome, com o ritmo cheio de bichos, combativo, brusco, um romance de detalhes, as ideias em pó, ossos quebrados de outras ficções, nacos de um romance que se recusa, até porque o mundo já não se aguenta; depois de tanto se envolver, o cansaço é o génio, aquilo que sai para lá da conta, o sobrante, e julgo que me terão reconciliado com a ideia de que qualquer verdadeira honra que este tempo se disponha a fazer-nos terá de passar por alguma forma de condenação, ainda que rodeando a última, a mais honesta, a morte; por isso, se da vida deles retive a clareza dessas tão límpidas notas, se me parece que vibram sobre a música de lembranças realmente duras, tudo isso me soa mais verdadeiro, apontado ao órgão que em nós suspira, a paisagem torcida como um pano, a pingar, retalhos ínfimos, o equilíbrio de quem aprendeu a esconder-se nas coisas que vê, modelando o infinito amorfo do seu inspirado hálito, afinal, se a vida nos surge por extenso é só porque nos habituámos à conversa, às tantas bocas que o dizem pegado, esses sentimentos exagerados, a forma suja de saudade em que ninguém acredita, uma coisa sem pele, essas baladas sobre o remorso e a redenção, tudo limpo, emocionado, uma humanidade para consumo de quem não viveu nada, nem se apercebe que a dor nunca ajudou a articular qualquer narrativa, antes a deitá-las fora, e assim passemos frio entre os apontamentos que restam, não duvidando de que os mestres morrem pelas costas, esquecidos ou atirados à fossa, e que não te quebre o lábio adolescente, não pouse nele a mosca dessa fala, a deliciar-se com o mel do desastre, se podemos continuar, sentir contra a carne o peso de uma estrela como o da própria respiração, talvez tenhamos ouvido o suficiente e nos seja impossível fingir que tudo não passou de uma brincadeira.

domingo, julho 21, 2019


Um começo natural ainda seria pior, devolvendo um rasto que já lá estivesse, o balanço sentido como vício, como ainda antes de ti o peso do corpo do pai sobre o da mãe, lias a frase com a sensação de que nela os sentidos estão cheios, as imagens fartas, a perspectiva degolada, quando se fala, não uma língua suspensa nem morta, mas acabada. E saber que há países, épocas inteiras assim. E que grande avanço não seria se não déssemos mais voltas, não virar nem à esquerda, seguíssemos adiante, a ir saber dessas últimas consequências, onde as forças para se animarem assobiam, o sopro de um lado ao outro serve de combustível para caminhar dormindo, arrasando os sonhos, num delírio seco, as impressões espremidas até ao osso, recluso de um ritmo, um passo e mais outro implorando, e isso nos roube a presença, numa queda brutal que se veste, em que o estar perdido organiza as coisas segundo uma urgência, assim põe-me sal, põe-me outro norte à frente, faz que o parafuso rode da forma mais lenta, como flor viva por entre a carne, abre-me uma ferida solar esforçando um raio, um dito onde o cuspo de outros séculos conserve alguma atitude, algo mais nobre do que essa arrogância de achar que porque se está vivo se tem algo que aos mortos faz falta, roda-o de forma lenta para irmos um pouco além do tremor, e se aspire um ar que depressa arrefeça, ter uma estrela debaixo e tu a coseres por cima a pele, respirando com uma força tal por cima da dor para que o juízo chocalhe um pouco, para desmontar o labirinto, as ideias se enfrentem, deixem esse ânimo territorial, se esganem, para que a dúvida tenha então a desejada extensão ao seu redor, um belo deserto, ainda serás roído, espera assim que venham os insectos, que o céu se abaixe e o passaredo te use como caixa de ar, que trilos, que modo de se deixar levar, e que isso te faça rir das antigas convicções, e se desembarace do açaimo a fera, então podemos afundar dessa leveza terrível, atravessar por dentro o olhar dos anjos sobre nós, um desastre que dura, que parece ter fome, e pelo qual passas como se cortando flores.

Céline


When you stop to examine the way in which words are formed and uttered, our sentences are hard put to survive the disaster of their slobbery origins. The mechanical effort of conversation is nastier and more complicated than defecation. The corolla of bloated flesh, the mouth which screws itself up to a whistle, which sucks in breath, contorts itself, discharges all manner of viscous sounds across a fetid barrier of decaying teeth—how revolting! Yet that is what we are adjured to sublimate into an ideal. It’s not easy. Since we are nothing but packages of fetid, half-rotted viscera, we shall always have trouble with sentiment … Feces on the other hand make no attempt to endure or to grow. On this score we are far more unfortunate than shit; our frenzy to persist in our present state—that’s the unconscionable torture. (“Journey to the End of the Night”)

sábado, julho 20, 2019

quinta-feira, julho 18, 2019

A Guerra dos Condóminos



Dada a evacuação faz já uns anos de tudo o que fossem altos vultos, com o fim das grandes casas senhoriais e de tão dispersos os ermos casinhotos, o problema da habitação no meio literário português acabou reduzido a um imbróglio ao nível da propriedade horizontal, as reuniões de condóminos que, ou não se fazem de todo, e cada um desrespeita os regulamentos como se lembra ou só para chatear, chafurdando ele mesmo para incomodar menos mas um tanto os demais, ou, se há razões superiores, ameaças de novos invasores, lá se reunem as hostes e acaba tudo numa tremenda zaragata. Faz já uns anos que vim viver para uma palhota, e, antes disso, há uns meses que me vinha baldando às cerimónias, missas, quermesses. Lembro-me de certa vez ter dado por mim protagonista de uma circular saída do punho do mais eminente presbítero em característico tom seco e tosco a queixar-se de que este menino fora apanhado a bocejar na última reunião de trabalhos, e que isso era atentatório da dignidade da missão e coiso. Foi mais tarde que vim a descobrir numa fita qualquer que nas salas de interrogatório uma técnica básica ao confrontar um suspeito de actos tenebrosos é interromper-se e hastear bem alto um magnânimo bocejo, até espreguiçando, e isto porque, se é conhecido o efeito contagiante desse gesto-em-cauda-de-cometa, quem sempre fica imune, quem melhor resiste a esses efeitos é o psicopata. Ora, do que me lembro, na sala só houve um dos que lá estavam que abriu a bocarra e lacrimejou um tanto. Talvez o medo tenha levado ainda um ou outro a disfarçar, esconder os destratos que nos causava aquela cegarrega, mas é sempre bom dar por si folgado, rindo de recordações, assim se goza desbragadamente o gosto de andar cá fora, e de, apesar de uma ou outra mazela, se ter saído do Grande Convívio batendo com as sucessivas portas que se me punham pela frente. Da experiência de mais um ou outro que me antecederam nestas coisas, mesmo que de outras gerações, estava já instruído quanto às condenações que haveriam de seguir-se, mas a situação ainda ganha contornos mais hílares se vos disser como, depois de um período de confusões, acabei dando-me conta de que ao sair os trancara lá dentro. E por estes dias, quando nada tenho que fazer, colo os pedaços quebrados do que vou ouvindo e lendo, sei juntar dois e dois... (mesmo se, às vezes, até por maldade, junto um pontinho e dá cinco, não falho por muito) e se as memórias que guardo chegam a parecer-me um tanto delirantes, logo algum fio vem socorrer-me entretecendo-as, e, pelo intricado da deplorável trama, sei que não podia ser coisa toda ela montada lá nos fundos da oficina da imaginação, pois fede demasiado ao tão triste e cultuado real que lhes servia de programa. O que também agradeço são certos estímulos, presentes que me puxam de volta para os braços do passado, e nem escondo o prazer de lá ir quando as horas me não dão outros espinhos onde aguçar o sangue, pilhando-o assim “como uma enorme rosa em estado de decomposição”. Gosto sempre de me mirar nessa janela empoeirada e ver do outro lado a família a molhar o pão resseco na mesma sopa d’antes. Vez por outra ainda me chegam estilhaços, alguma homenagem por meio de referências cifradas, um retrato aplicado de quem, noutras circunstâncias, me fugiria como as galinhas fazem, armando um berreiro até desaparecerem deixando só as penas, e então lá me obrigam a abrir um tanto ao calhas o canhenho marcial, soprar umas aparas, e ir cheirar o catálogo a ver se me lembro... ah pois, este – diz que é rijote, que é cheio de talento naquelas unhas, um pouco atarantado, da ideia de flanar só lhe ficou a flanela, ou aquela ali, sempre a urdir a sua apertada teia, ensarilhar nas sombras, sabe como ninguém do crochet, tão aplicada nas variações entre essas notas ora doces, ora severas ou melífluas, numa de eterna governanta como as formava o lazarento país do Salazar e da Nossa Senhora, e parece que ainda faz suas malhinhas por escrito sempre que se apanha em trânsito, de resto, e à volta, há os que entoam uns rosnidos em coro, com um ou outro tenor a destacar-se, mostrando a dentuça, e entre labirínticas demandas, versinhos achacados, violências entredentes, sentam-se a assistir ao filme da sua posteridade, mas se passa alguém pela rua e olha, amatilham-se a ver se causam impressão, a dar a ideia de que, se for preciso, afinfam, infelizmente, depois não há um que se faça, ferre o dente. São demasiados colos, e quando aquele além se empina é para mostrar aos outros o que faria na hora, mas chega a hora e cisca os cantos. Quanto aos restantes felinos desesperados, ao que sei ainda se presta culto àquele que ganhou fama como "o gato mais colérico da sua geração", o que revelou como, no fundo, estávamos mesmo era na presença de ratos. E o tempo vai passando, a tão cortejada morte vai chegando por fascículos, os alvos comuns e as raivinhas que em tempos os uniam estão aí como dantes, peruando, e, na verdade, cada vez mais se lhes assemelham. Nem com o ânimo reunido a muitas mãos lá nas reuniões clandestinas da célula celeste, em salas forradas a murmúrios, puetices, bustos de algibeira, e com as letras gordas das graves frases motivacionais em modo de requebro lírico, nem com tudo isso se deixam arrastar para a coragem dum ataque. Entre roncos, suspiros, bater de pés, remexer de nádegas sentadas, etc., gastam-se nessas actuações, numa espécie de concerto minimalista, perpétuo e que (julgam eles) bem merecia ser gravado, deixado aos vindouros... Assim, tentando retribuir o favor, espero homenageá-los se disser que me lembram os amorosos melancólicos, envaidecidos das sombras tantalizadoras que deitam com a luz certa, e como sei que o apreciam, dou-lhes do Camões um eco, vindo do passado, para admirá-los nessa permanência dos que nunca morrem porque são logo substituídos por outros: "Estes, no andar, carregam as pernas para fora, torcem os sapatos para dentro, trazem sempre Boscão na manga, falam pouco e tudo saudades, enfadonhos na conversação pelo que cumpre à gravidade do amor. Nestes fazem as alcoviteiras seus ofícios, como são: palavras doces, esperanças longas, recados falsos. Hoje vos falam pela greta da porta: como vos não falou 'estava mal disposta', 'sentiu-a sua mãe'. Porque esta é a isca com que Celestina apanhava las cien monedas a Calisto."

Espaço Ulmeiro, meio século depois



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sábado, julho 13, 2019

sexta-feira, julho 12, 2019


Falei baixo um bom tempo como qualquer outro parasita celestial, e hoje é nesses pontos onde começo a desaparecer que encontro margem para algum resgate, como o bom velho que achei num estrago espalhado e me dizia, "Quem me partiu foi o meu espelho." Deus tornara-se já, por esses dias, um assunto obsceno. Podíamos passar fome de outras coisas, a vida incomodava-nos tanto que a havíamos assumido como uma tarefa qualquer, como arrastar-se tendo uma pata em cima, e não por um orgulho imbecil, mas porque depois de um certo ponto é mais fácil ir contra o mundo ajudando à nossa destruição. Como se perde o próprio nome na boca de quem nos olha não como a um ser só mas uma praga. Estar com as sombras, com as marés de tinta, na troça ou nos resmungos, também no grito dos autores desconhecidos, todos esses dons dizimados, vozes por detrás da parede, e flanquear a noite. Depois é o que se sabe, como o raro talento se sente estúpido, pede desculpas e se ausenta quando o seu eco ainda só rodeava a mesa, antes de se sentar e dominar a conversa, ferido por esse peso das frases deixadas pela metade, a prosa que nunca quis nada com a medida justa das coisas, mas se deixa prender ao balanço, a essa escura ferrugem actuando no limite das coisas, algum esbanjador admirável a gastar-se em nome de uma úlcera, a desfraldar-se todo, com o alcance de um marinheiro, cuspindo a voz num seixo sobre a água, e o chape-chape voltando para terra, pedrarias mas sons, desses de nos arrastarem para o fundo com eles, navios fantasmas numa espécie de convalescença melodiosa, uma imagem que te trague e te roa até ao fim do esqueleto, cuspindo no fim uma estrela, eu tenho de devorar-me e cuspir quantos caroços até que o sentido me deixe de vez e possa reclamar-me rei do absurdo. E ainda ler aí outra coisa, o que a mosca ouviu da rosa, e mais, mil bagatelas, entreter-me a dar-lhes razão, inventar uma ordem, esse espanto ao aspirar de uma vez o cheiro de tantos dias em pó. Num idioma em tumulto, como se sabe, cada palavra ouve outra coisa, cada frase tresanda, e ninguém imagina antes de a proferir onde dormiu, bebendo do quê. Entregamo-nos a demonstrações de delicadeza sem nenhum propósito, esse desastre que nos arranca aos cansaços de que o mundo se governa. Depois do fracasso é que as revoltas se tornam boas para música, parecem compor com alguma tempestade rente aos ossos, deixando o velho reino como a um cemitério, o real com as suas batalhas intermináveis e triviais, esses motivos e horizontes intragáveis, e ainda todos esses versos lacónicos apanhando "as beatas da existência", preferindo antes o veneno de ratos, este alimento hoje inadiável.

Homecoming (1ª temporada)



8/10


Temos de fazer o pouco sentido das invenções menores, luzes trepidantes, ideias obsessivas que há muito perderam o rastro até às suas origens, como gestos frios, repetitivos, depenados. Temos os nossos carris, o que seja preciso para transportar num sentido o desprezo por nós e regressarmos frescos, como se lavados, tendo dormido com algum ser encantado, doente de paixões sagazes, e essa sorte que nos comove, mesmo que não seja para nós, porque a eternidade é um desgosto sem fim, e o único prazer é mirar esses corpos breves que queimam com tal intensidade que nos enchem de alegria e pavor. Por isso só se deixam olhar uma única vez. Se nos falta a coragem, se desviamos por um instante os sentidos, escapam-se-nos. Eu persegui uma e, não entendendo a sua natureza, dei por mim a detestá-la. Humilhava-me com o seu talento sobrenatural. E eu fiz-lhe todas as juras que sabia, escrevi votos, desatei-me em solenidades ou a fingir que podia acompanhar os pássaros, fingi que sabia como se faz música, e depois de dias e noites em que era náufrago aos tombos num mar agitado, julguei que podia mostrar-me ofendido, carreguei no amuo, como se quisesse convencê-la de que a esperava uma guerra impossível, um remorso que lhe daria caça onde quer que fosse, mas era eu quem não entendia nada da sua natureza, e imaginei-me a rogar-lhe pragas espantosas, coisas de se recear o sono, a própria noite, mas era o mundo inteiro que parecia abanar a cabeça com pena dos meus esforços, e então começava de súbito a murchar, a enegrecer e a segregar um crepúsculo coxo que contaminava tudo, passando de umas coisas para as outras, e eu mal via um palmo à frente, e julgo que deixei de ser capaz de vê-las, perdi o gosto imenso que tinha de as seguir sem outra intenção do que aproveitar a boleia de um odor tão suave no seu confuso tumulto que recombina melodiosamente o caos à sua passagem. Seria talvez pior se hoje me mostrasse arrependido e procurasse desta vez escapar à danação ao invés de ser-lhe fiel, aproveitar ao menos a sua luz impiedosa para olhar desde este ângulo em que, por se nos esquivar a beleza do mundo, se torna tão mais fácil distinguir esses traços de pureza e de virtude que vão servindo de consolo aos moribundos.