quinta-feira, outubro 11, 2018

Para Ana Bárbara Pedrosa, a minha réplica


Se há um sinal indisfarçável do vazio da crítica entre nós, esse terá de ser a falta de réplica a qualquer texto de natureza polémica. Por mais demolidora que seja uma crítica, quem está do outro lado faz do silêncio a sua mesquinha estratégia. Como vir pela calada vazar os pneus da bicicleta do adversário, e no dia seguinte montar a própria como se não fosse nada. É certamente menos trabalhoso, menos arriscado do que tecer argumentos que tornem uma convicção mais atendível do que esses enredos supersticiosos que, de virem junto ao peito, gozam do estatuto de uma filosofia pessoal. E se este tempo se serve da hipocrisia como de rebuçados de mentol, não devemos ser nós, depois, a virar costas a um desafio directo, e mesmo que seja estruturado na base da gritaria, numa acumulação tonta de acusações, num dramatismo que já surge fardado de indignação. 
Ao ler este texto de Ana Bárbara Pedrosa, longo, vertiginoso, como uma carta de denúncias de violações dos direitos humanos por um daqueles exércitos da libertação nalgum cu de judas, a meio, já nem dava pelas aldrabices retóricas mas dei por mim exaltado, uma vontade de cair em cima do cafajeste que teve o descaramento de fazer... o quê!? Pois então: vir dizer para um jornal que uma obra que faz ficção de um crime com contornos escabrosos, um episódio hediondo, alvo de intensa cobertura mediática, tantas vezes de forma sensacionalista, não podia deixar de observar um certo pudor, ao transformar em personagens de um romance a vítima e os agressores – menores à altura do crime, e também eles vítimas de grave negligência por parte da instituição que a muitos acolhia, sendo que alguns haviam sofrido abusos de toda a ordem, e violência não só física como sexual. 
Não me revendo numa crítica que se confunda com explicações às criancinhas, não me parece que esta deva ficar-se por uma prova pericial, não tem de recolher amostras de material orgânico como se vê no CSI, e o crítico não está obrigado a redigir um auto policial, descrevendo com o máximo pormenor que passos o levaram a chegar a certas conclusões – no caso à leitura que fez de um livro. A crítica pode e deve ser exercida sem esse peso, e é uma imbecilidade, face à esmagadora máquina de promoção e divulgação de editoras como a Leya, encostar ao pelourinho justamente o crítico que, até ao momento, se acha sozinho, tendo sido o primeiro a descobrir um só pêlo na empada, quando todos os outros críticos e jornalistas culturais (entre os quais ABP, e não é demais, como se verá, sublinhar isto) vieram de imediato saudar a obra, e cobrir de louros o seu autor. 
Já iremos ver, de resto, como basta usar os mesmíssimos argumentos esgrimidos por ABP para virar sobre a cabeça a sua apreciação crítica, ao passo que eu sou taxado de “avaliador totalitário, sobranceiro”, “assumindo uma atitude perniciosa”, “bobo da corte da arte”, “um inútil panfletário” que “engana os leitores”, um absoluto irresponsável, intelectualmente desonesto, e mais e mais... Afinal, se se fizer uma análise da crítica esgalhada por ABP, dias depois de o livro ter chegado às livrarias, logo se perceberá como não tem mal nenhum, por outro lado, produzir enfáticas sentenças sobre a qualidade de um texto literário, não fazendo depois mais do que elencar um conjunto de frases do livro, como se se tratasse de um arranjo de flores, para garantir que de facto se leu a obra. Mas a mesma liberdade que se dá ABP para ser pródiga no elogio, já não a gozo eu, pois como é bem sabido o elogio é um bem, é bom, como descer uma superfície inclinada (todos os santos ajudam), já se for para apontar falhas, pôr em causa a “seriedade” de uma obra que nos oferece uma perspectiva de substituição da realidade, um pretenso romance que, como defendia na minha crítica, usa a ficção, não para lidar com o que há de indizível no horror, mas para produzir enredo, entreter, isso já não se pode. Lesam-se as majestades. E mesmo se a narrativa em questão anda às cavalitas de existências marginalizadas, miúdos atirados para a berma da sociedade, esta que tanto se espanta e ganha pele de galinha, fingindo que o mal é qualquer coisa de intraduzível. Assim, esta “literatura” participa como álibi, já não no processo criminal, mas para a sociedade que prefere desviar os olhos, não tomar em conta as consequências da forma como exclui, criminaliza, e, pior ainda, retira a voz, passa um pano. Prefere acreditar em monstros. 
E é bom destacar a justificação que o autor ofereceu para ter preferido não falar com nenhum dos rapazes julgados pelo homicídio de Gisberta Salce Júnior. Disse ao “JN” que não o fez “por sentir que esse contacto podia contaminar o projecto”. "Senti que a história pedia ficção. Queria criar um espaço para pegar numa estrutura real e pôr personagens em acção, inventados ou não", diz, convencido de que "o cruzamento entre a realidade e a ficção é a única forma de tratar este tema". Ora, é este convencimento que me deixa perplexo. E num autor que, embora tenha vivido no Porto, e tivesse a mesma idade dos rapazes à altura do crime, assume desconhecer o contexto em que estes cresceram, e ainda revela a sua ingenuidade na entrevista que deu ao “DN”, ao dizer que se sente à altura do desafio, para depois admitir que se serviu do “calão típico desses bairros que conheço em segunda mão ou através do YouTube”. 
Na mesma entrevista, afiança que procurou basear-se “no concreto porque desconfio de mim próprio e da imaginação”. E isto vem cauterizar uma das inconsistências que ABP aponta à minha crítica, quando afirmo que a obra de Afonso Reis Cabral é assumida como uma reportagem romanceada. E já agora, aproveito para esclarecer porque é que não me parece que uma reportagem romanceada seja um romance. E como ABP parece ter gostado da citação de Alberto Manguel, ainda que ache um desperdício quando chamada a participar no “descalabro” da minha leitura deste livro, sirvo-lhe uma outra citação para aclarar este quesito, agora de Milan Kundera, em “O Testamentos Traídos” (livro que acaba de ser editado pelo mesma editora que apôs o selo a “Pão de Açúcar"): “as palavras ‘o fim da história’ nunca me provocaram angústia nem desprazer (...) Se está para acabar (embora eu não saiba imaginar in concreto esse fim de que os filósofos gostam de falar), que se despache! Mas a mesma fórmula, ‘o fim da história’, aplicada à arte aperta-me o coração; esse fim sei imaginá-lo bem de mais, uma vez que a maior parte da produção romanesca de hoje é feita de romances fora da história do romance: confissões romanceadas, reportagens romanceadas, ajustes de contas romanceados, indiscrições romanceadas, denúncias romanceadas, lições políticas romanceadas, agonias do marido romanceadas, agonias do pai romanceadas, agonias da mãe romanceadas, desflorações romanceadas, partos romanceados, romances ad infinitum, até ao fim do tempo, que nada dizem de novo, não têm qualquer ambição estética, não trazem qualquer mudança nem à nossa compreensão do homem nem à forma romanesca, parecem-se uns com os outros, são perfeitamente consumíveis de manhã, perfeitamente descartáveis à noite”. E se, com isto, faço sobressair o enquadramento de que me servi para tentar demonstrar as fragilidades do suposto romance, percebo bem que possa estar a exigir de mais a ABP se espero que entenda a subtileza que torna radical a diferença que há entre conceitos como “romance” e “reportagem romanceada”. Afinal, este é o tipo de nuance que tende a passar ao lado de uma pessoa que julga que o problema da literatura portuguesa actual são fenómenos como “Chagas Freitas e Minh’Almas”. 
Esta crítica terá muita dificuldade em arranjar espaço na sua catástrofe simplista para perceber que o perigo nunca vem dos sub-géneros literários, sinalizados e desconsiderados como puros fenómenos de massas, mas sim daquelas obras que se servem de forma vã do prestígio que devia estar reservado a obras realmente de excepção. Mas num aspecto pelo menos, ABP veio facilitar-me a vida. Pois se pretende estreitar a minha intervenção crítica, vê-la operar como mero exercício de ilustração, prescindindo de uma leitura sensível para se remeter a anotações na margem e sublinhados do texto analisado, também eu posso virar o bico ao prego, e servir-lhe uma batelada de exemplos de como, na crítica por ela feita ao mesmo livro, não arrisca qualquer leitura crítica, mas se fica por uma recensão pastosa, como professora de primária interessada apenas em avaliar se a composição que tem à frente cumpre ao nível da gramática, sintaxe, clareza, capacidade de síntese. Agora, para levantar dúvidas, lançar suspeitas, espreitar cáries na dentição da obra, não contem com ela. E é então que surjo eu, feito arruaceiro, qual vândalo, e ao invés de me contentar em ir no meio, uns com os outros, uns dentro dos outros, fujo dessa chusma que vem louvaminhar sem pejo a obra, como fez João Céu e Silva, dizendo que “este romance – e a investigação que o suporta – é o melhor exemplo do cruzamento entre a ficção e a realidade já tentadas na nossa literatura”... Por sua vez ABP, que, reconheça-se isto, não se põe a fazer pontaria àquele tipo de frases que as editoras recortam para compor o panegírico das badanas na segunda edição e seguintes, também não tem dúvidas de que estamos perante um autor que domina solidamente um estilo e que provou neste livro a sua capacidade de “outrar-se”. Ó-ó, e isto “imagino que para explorar as potencialidades da literatura e a versatilidade da mão, e é tal a diferença entre os contextos (família, classe social, habilitações literárias, amigos) que, em primeiro lugar, não podemos deixar de gabar-lhe a exímia construção de personagens”... ABP imagina... e nós o que podemos fazer senão contentar-nos com noções imaginárias quando logo depois ela nos diz que “o narrador escreve como um Reis Cabral, mas fala como um Rafa” e adianta que “o que espanta é que isto se leia sem soar a falha técnica, a descarada ficção”?
Mas vamos então meter as mãos na massa, trancrever uma citação de “Pão de Açúcar” com vista a realçar a leviandade com que se produzem as afirmações da crítica (ABP) que, não só faz o trabalhinho sujo, ainda vem empertigada dar lições de como a coisa deve ser feita, o que cabe na crítica e o que não passa de injúrias.
Logo na página 47 podem ler-se estes dois parágrafos seguidos e que servem como exemplo da capacidade do autor para apreender os modos de linguagem das suas personagens, nomeadamente através de vídeos do YouTube. Só para situar, esta é a cena em que o narrador pela primeira vez se depara com a personagem que usa o nome da transexual brasileira que foi morta em Fevereiro de 2006: “A descarga deu-se antes de ser vista ou ouvida, dique que rebenta atrás do monte. Correu algures entre os meus braços e desaguou em fúria na boca: ‘É minha, ó puta velha! Não lhe toques [na bicicleta], que te parto a cara. Quieta! Tem cuidado comigo. Mexeste-lhe? Mexeste-lhe de certeza. Caralho, tens de pagar. Foste tu que lhe enfiaste o papel? Ninguém me diz que está linda, eu sei que está impecável, vai ficar impecável, não lhe podes é mexer. Põe-te a andar.’” 
E depois de ouvir isto do narrador, agora vamos auscultar a sua consciência e perceber porque é que faz todo o sentido dizer que escreve como um Reis Cabral: “Parei para respirar, as palavras a quererem sair mas eu incerto se puta velha se aplicava, e inseguro perante a figura que ajeitava as calças de ganga e aguentava os insultos como se noutras ocasiões a tivessem tratado por puta velha.” 
Lá está, depois de um chorrilho de palavrões, o narrador fica ali a contemplar a propriedade que terão os seus insultos, e salta de repente de uma caricatura “tosca” para a consciência de um rapaz atinadinho. Ora, estes saltos passam a vida a acontecer ao longo do livro, e não faltam momentos em que o autor imputa ao narrador o género de comentários freudianos que se espera de um literato que não se consegue controlar, e, mais do que a ficção servir de sustento à realidade, contorce a realidade de modo a que nela caibam os seus floreados narrativos: “Nós os da Oficina, não conversávamos sobre o passado e não discutíamos o futuro, por isso surpreendeu-me ele anunciar que a conhecia, mas fiquei contente por não descrever os pormenores ao Nélson. Só a mim.” 
E o melhor vem agora: “Se a franqueza dele me surpreendeu, também achei que o tornava vulnerável. O conteúdo não importava, todos tínhamos mães e pais assim. O próprio acto de contar, esse sim, revelava uma vulnerabilidade que muitos poderiam entender como feminina – quer dizer, como fraqueza. Confiar em mim pôs a nossa amizade à prova.” 
Não é lindo ver este tipo de balões desenharem-se sobre a cabeça de um “guna”? É o género de noções que se esperaria ouvir no corredor de uma faculdade de psicologia, ou, então, numa narrativa de ficção em que a intimidade surge a articular sequências que foram confessadamente “todas planeadas num guião inicial”. Isto diz ARC a João Céu e Silva, depois de ter exemplificado deste modo a forma como lidou com o facto dos leitores já saberem “o final do caso Gisberta”: “É como se o escritor estivesse a jogar flipper, em que a pessoa faz saltar a bola de um lado para o outro com o objectivo de chegar ao buraco no fundo e fazer pontos.” 
Ora aí está, ninguém o pode culpar por marcar tantos pontos com as ABP’s deste mundo. E se na crítica que escrevi no jornal i não pude ir tão longe na apreciação deste modelo de ficção que, de base, já é pensado como um guião, é fácil alargar o diagnóstico, e frisar como tantas obras que passam travestidas de romance entre nós não são mais do que esqueletos ornamentados, em que se percebe que o autor deseja projectar para o grande ecrã a realidade, e na sua cabeça conta com um sem número de efeitos, com o relevo da banda sonora, e ele mesmo se coloca na audiência, admirado, enchendo a sala no escuro, à medida que a caneta desliza, vai pelo papel atirando uns contornos vagos, sem a técnica nem o empenho para encher de vida cada detalhe, cada passagem ou frase, fazendo da narrativa não um esboço mas um fim em si mesmo, sem contar com a imaginação do leitor para compor o quadro. 
E aqui está o aspecto mais oportunista de uma ficção que se constrói com factos que já se conhecem, que já nos dominam com o seu peso e gravidade, o seu convite solene a recriações dolorosas. Naquela mesma entrevista, ARC também explicava que o modo como enleia personagens e a história em mais de meia centena de capítulos é fruto de um calculismo total: “que não transparece na leitura [pensa ele] mas foi muito estudado, nunca dizendo nada a mais nem antes do tempo no episódio, guardando factos para o momento certo à frente.” Portanto, este suspense de ficção proto-televisiva é assumido, e neste ponto mais uma vez se percebe que ABP, ao vir defender a honra do autor, não foi tão cuidadosa no estudo, ou teria percebido claramente ao que me estava a referir quando falei em “ficção esquemática”, “composição formulaica” e na desnecessária demora de uma arquitectura feita pedra sobre pedra. Talvez até se possa falar de uma reprodução da realidade com peças de lego literário. Mas aqui já estamos a provocar irritações cutâneas e subcutâneas aos fiéis da crendice crítico/literária. 
Passa da meia-noite e estou derreado depois de desgravar uma entrevista, essa sim com um personagem que merece mais dedicação crítica, mas uma vez que me sinto obrigado a prosseguir, a aduzir mais elementos que sirvam para ilustrar como cheguei à leitura que fiz (claramente de forma ilegal, especulativa e insultuosa, violando o código de deontologia dos profissionais, uma vez mais garantindo que nunca serei aceite na Ordem dos Críticos; tristeza, tristeza), lá terei de continuar a reunir da obra os destroços, pois já não dá, perante tão furibunda audiência, para indicar simplesmente onde coloquei as cargas explosivas, no intuito de provocar uma demolição controlada. Está tudo descontrolado. Atacar um livrinho de um dos membros da grande família das letras dá nisto. Mas sempre tem graça a forma como ABP termina o seu libelo contra mim. Depois de sugerir que serei um dos responsáveis pela tabloidização do jornal i, num número de histeria e patetice pegada, esta ainda vem com a conversa de que sou eu o tal, o 666 da crítica, o culpado pelo “cancro que envenena a relação entre escritores, leitores e críticos”. 
Uma vez mais, não posso dizer que não fique um pouco vaidoso com a forma disparatada como, tentando ofender, me enaltecem. Quem me dera ter a força destruidora de um cancro perante a actual configuração destas relações. E não deixa de ser curiosa esta analogia: cancro, hein? Mas e as metástases, onde estão? É que do ponto de vista aqui da besta totalitária sempre gostava de ver como é que explicam todo este domínio, com que polícia secreta promovo tão periclitante ditadura, se estou nesta minoria de um contra a evidente, a absolutíssima maioria. 
Afinal, não aparece ABP num elenco de mais meia dúzia de críticos que logo vieram pronunciar-se favoravelmente, sem quaisquer reservas, no que respeita à qualidade literária de “Pão de Açúcar”? Não vou repetir aqui que toda a unanimidade é burra, mas como foi que saquei o papel de vilão tão facilmente, como é que sou eu o cancro, essa doença sem cura, se querem fazer de mim simultaneamente o "bobo", o maluquinho que gasta os dias a escrever “um chorrilho de insultos sem justificação” nas páginas de um jornal-jangada, um jornal que se aguenta sabe deus como, e se encontra no extremo oposto ao do “Correio da Manhã” no que toca a vendas em banca. São mistérios do catano, e também esses mereciam uma investigaçãozinha. E se gostava de me estender por aqui, tenho receio que isto se transforme numa crítica romanceada, desnecessariamente demorada, à la Reis Cabral. Prosseguimos? Prosseguimos. 
Então, por descargo de consciência, bota aí mais uma citação para satisfazer a ânsia de ABP por explicações. Vamos lá tornar mais claro essa coisa da narrativa chucha, balde de pipocas, sofá, controlo na mão, e se me aborreces mudo de canal que já é quase uma da manhã. Assim, atente a senhora doutora numa dessas sequências que, logo na página 35, me levantou as tais suspeitas de que o livro que tinha nas mãos não passava de mais outra estopada com vontade de dar em filme. 
Estamos no capítulo cinco, num autocarro, e os gunas estão para ali a ouvir uma conversa, entre uma mãe e uma filha ruiva, que “além de muito nova, era muito gorda”. E um deles, o Leandro, quer ouvir melhor e pisa uma grávida. E não é que estejamos já a contar com isso, mas o autor resolve armar um basqueiro do caraças, e a coisa embrulha-se nestes termos: “Seguiu-se o lógico. A grávida berrou com a ruiva porque ela lhe trouxe as dores do parto, pôs a mãe em causa e agora defendia um rapaz qualquer. A mãe atirou-se ao Leandro. A ruiva fartou-se daquela gente que deixava engravidar adolescentes, mentia e, para cúmulo, dava cachaços a crianças. Também se levantou e foi de encontro à mãe.O Leandro continuou calado. Mais tarde não soube explicar os pormenores do que se passou, mas mostrou-nos marcas de dentadas nos braços, prova bastante de que as mulheres discutiram, cuspiram e bateram uma na outra e nos que passavam. Abriu-se um espaço no corredor. Um homem dizia ‘O povo é sereno, vamos ter calma, minhas senhoras’. Uma criança subiu às costas da ruiva. O motorista acelerou, talvez a pensar estou farto desta merda. Duas velhotas choravam. Um funcionário público, ou alguém com cara disso, não reparou no que se passava. E o Leandro achou boa ideia dar um murro na grávida para ver se os ânimos acalmavam. A cena acabou com a mãe a atirar para o chão um punhado de cabelo ruivo, cuspir por cima e dizer ‘Puta de sebo!’.” 
Aí está para gáudio de ABP e seus congéneres, para que se delicie com a fluidez da acção. É pena que, à semelhança do Leandro, o autor também não saiba explicar muito bem os pormenores. As coisas passam-se num desaforo narrativo em que nada sabe, nada provoca choque nem corta a respiração. Os capítulos já de si parecem ter um metrónomo fixo e a acção tem que marchar ao ritmo. Mas ABP não dá por nada. Ao contrário do motorista do autocarro, que acelera, farto desta merda, ABP, acha que na prosa de Reis Cabral “o que surpreende é que parece natural”. 
E com quem se chateia é comigo, é com a minha prosa “imprestável, auto-laudatória, auto-deslumbrada e [porque se acabaram o sinónimos] para mais perversa”. Mas se nas minhas considerações não encontra “préstimo algum”, o que ABP curte e exalta, o que lhe dá os calores é quando o Rafa vê uma chavala sentar-se ao seu lado: “Fato de treino, brinco de plástico, pingente do mau-olhado no punho esquerdo, vestimenta igual à do último dia em que a vi. Cheirava mesmo a feno, prova de que viera algures do descampado donde as raparigas brotavam.” 
E se a coisa até estava a fluir bem, naquele tom bandido próprio de um “catraio”, veja-se o desenvolvimento da cena: “Sei que parece ingénuo (até que ponto não é sempre ingenuidade o que vai dentro de nós no que diz respeito às mulheres [é impressão minha ou isto está a ficar fofo?]), mas era suposto sermos duros – homens a sério aos doze anos.” Sim, Rafa é suposto sermos duros. Lá de donde brotavam os putos como eu, dizia-se: “temos de ser duros, porque os duros é que penetram”. 
Perdoem o aparte; é do adiantado da hora... E além do mais já nos teremos desenvencilhado algures dos pruridos da boa da crítica, não? 
Mas a cena ainda não acabou. A parte melhor vem depois, quando a Alisa diz ao Rafa: “Eu não faço sempre isto”. E Reis Cabral faz-nos o favor de transmitir o que nesse momento vai na cabeça do puto: “Por isto eu entendia sentar-se na margem comigo, mas também se podia entender por dar apenas as mãos e observar a paisagem. Eu ouvira dizer que ela fazia sempre muito mais, aquilo que o Nélson definia como dar o pito, o que não me incomodou, porque esquecemos o passado quando damos as mãos a alguém ao pé de um rio.” O sublinhado, naturalmente, é meu. 
É um momento enternecedor, e que certamente humaniza o miúdo, faz dele um de nós. E se há tantos momentos em que a Heidi e o Marco podiam fazer um cameo nesta páginas, o que vai faltando é algo menos infanto-juvenil, algo mais confuso, perturbador. Afinal, estes putos estão a dias de participar num acto de vileza que deixou Afonso Reis Cabral “incrédulo” quando ouviu a notícia, mas até aqui podíamos estar a virar as páginas de um “Uma Aventura”, desta vez com os gunas a servir de cicerones para a Invicta. 
Já sei, já sei. Sou eu que estou a ser um bocadinho cancerígena nesta apreciação. Mas então o que vos parece a cena de porrada seguinte, a primeira que deixa um cheirinho do que virá escalado à última potência a partir do momento em que Gisberta passa de novidade e atracção para os rapazes e se torna um saco de porrada. 
Estamos agora no capítulo 10 e veja-se como a cena é introduzida numa típica nota de guião: “De novo as zonas sujas da Prelada, desta vez com o Fábio.” E se na página 19 o narrador nos contava como "chegámos ao último andar, mais alto do que as casas em frente, e demos com uma vista nova: o mar da Foz. Eu disse «que lindo» e o Nelson até suspirou"..., agora descreve como costumavam fumar em paz no último piso, e como, depois de uns bafos num charro, lhe dá umas zonzeiras mais dignas de opiómano: “Qual mar, quais desenhos, qual ouvir as respirações e adiar. O doce agarrava-se à garganta e dava uma ideia assustadora de invencibilidade, como se eu pudesse saltar do prédio [aqui já parece mais que o puto meteu ácido], recompor os membros e correr uma maratona de seguida.” 
Mas o prato forte não são drogas mas um betinho que aparece logo a seguir, servido de bandeja. Aí é que os rapazes se entregam a uma trip orgíaca e com requintes de malvadez. Infelizmente, o Rafa devia estar com as percepções moídas pelo tarolo e só registou isto: “Descíamos quando demos com um espectáculo triste. Um betinho qualquer nas escadas. Juro que até usava farda e emblema ao peito.
O Fábio berrou-lhe de imediato ‘Ó puto, caralho pá, meteste-te onde não devias!’, e o Nélson, que nunca perdia uma má oportunidade para falar, avançou com ‘Ora agora um gajo destes no nosso sítio, pensas que és quem, cabrão?’.”
 
Uma maravilha. Cá estão os rapazes a agir em matilha, com um forte sentido territorial. E o beto... não tem graça como aparece ali, sozinho, como um ratito que se lança para dentro de um aquário para a cobra o engolir quando tiver paciência? Pois, é mais um exemplo formidável de acasos com uma pontualidade (lá está) esquemática. 
“Aqui o beto recuava, dizia um ‘Desculpem, vou-me embora num instante’ que foi ouvido com gozo da nossa parte. O Fábio agarrou-o, obrigando-o a espernear para a esquerda e para a direita, e deu-nos a entender que devíamos arrastá-lo para cima.” E agora, vem um perfeito exemplo de sinergia, em que a violência, por falta de melhor analogia, lambe os beiços com uma excitação sexual: “O andamento das coisas embalava-me, os braços do Fábio eram extensão dos meus braços, o primeiro murro foi tanto dele como meu. Pusemos-lhe um olho descaído para o lado errado. O Nélson também se atirou ao idiota, que gemia como uma menina [sim, nada de mariquices]. Arrastava-se, mordia o chão, espalhava o pó com os dedos [seria um orgasmo?]. O Fábio pisou-lhos, aplicando pressão devagarinho. Estalaram. E o gajo gemeu ‘Ai, minha Nossa Senhora’ [bem se vê que para um orgasmo não está nada mal].” 
Mas a coisa ainda vai ficar mais negra. Ponham aquela música sinistra e vão ver que até trepam pelas paredes sem largar o livro: “Em dois segundos desfizemos-lhe a camisola, e já não dizia desculpem, com licença ou saio num instante [é bem educado o moço – notem que está a levar nas fuças, mas não perde o sentido de berço (será que o autor também descasca as pêras assim?)]. Nem rezava [é natural que tenha perdido a fé no deus dos betos, que não o avisou de que estava a entrar em território guna]. Pedia ‘Parem, parem, por amor de Deus!’ [queres ver que estava a tentar converter os gunas quando ele próprio, lá dentro, se inquietava: Pai, porque me abandonaste?] e cuspia os dentes do pontapé que lhe acertei. Um canino, um molar e dois da frente.” Eu não sou nenhum dentista (depois do falhanço como crítico, está-se a ver que a minha vocação vai estreitando à medida que avançamos), mas parece que aqui o Rafa está à armar-se em gabarolas. Ainda gostava de saber como é que um só pontapé saca quatro dentes de trás até à frente. Mas não se impacientem comigo, que a cereja no topo do bolo compensa: “Era uma coisa violenta e física, sexo, não interessa se a quatro ou a três e só entre homens. Eu queria ver o sangue do gajo jorrado no chão porque era esse o desejo do Fábio. O nosso desejo. Sim sim sim, força. Dá-lhe mais.” 
Podia fazer a minha vénia e sair de cena já aqui. Afinal, são já as duas da manhã, estou com as cruzes todas lixadas (e creio que seja bem feito, no caso de um demónio como eu, que prefere produzir mais células para a pestilência numa hora em que devia estar a dormir)... Mas queria aproveitar para responder à mais veemente das questões que se nos colocam diante de um livro desta natureza, que teria sempre de responder perante a apropriação de um caso desta natureza, sendo certo que, face às lógicas de exposição mediática, tantas vezes apressadas, sem balanço, nem um período de reflexão, uma qualquer obra de ficção como esta teria de saber defender-se da sensação de aproveitamento, provar que não se deixa consumir perfeitamente de manhã, para logo à noite se mostrar perfeitamente descartável. 
A questão que aqui se levanta é saber até que ponto nos é licito (do ponto de vista ético, é claro) servirmo-nos da memória de alguém que foi entregue à morte de forma tão ignominiosa, e usar despudoradamente as circunstâncias de um crime não como uma trama escrita com o pavoroso rigor da tragédia, mas vir glosá-la, ainda para mais com o tão ingénuo propósito de preencher as lacunas através dos ‘poderes da ficção’. 
É um pouco difícil ter de explicar o óbvio, dar lições de sensibilidade aos tão sensíveis que ficam muito arreliados com uma crítica demolidora/insultuosa (sim, porque no actual contexto, atacar um trabalho pretensamente literário é uma ofensa de morte ao egozinho do escriba). Mas triste é ABP reagir à sugestão de que se deve manter alguma reserva diante dos desgraçados dias finais da vida de uma mulher, de uma pessoa que a última coisa que levou desta terra foi uma visão muito concreta do inferno (e esperemos que o Céu exista só para acolher Gisberta), e achar que está tudo muito bem em virmos agora fazer ficção disso. Contar historinhas. 
"Sendo a vida como é, sonha-se com vingança”, escreveu Paul Gauguin. E apetece perguntar a ABP se acha que “Pão de Açúcar” vinga alguém. Vinga Gisberta? Vinga os rapazes? Não tenho noite suficiente para levar esta viagem até ao fim, e amanhã hei-de estar lixado por ter perdido tanto tempo a explicar coisas que, quando não se percebem intuitivamente, não vale a pena insistir nelas. É falar para o boneco. Por agora, prossigo. Sabendo de antemão que o que me espera amanhã ou depois é mais das mesmas equivocadas tonterias coladas com o cuspo da mais desorientada indignação: “Quem julga ele que é?” 
Bem, por uma noite estou a tentar ser o cancro dessa tão inconsciente saúdinha feita de achar que o inferno dos outros pode ficar à mão das nossas ambições literárias. E ainda vamos ver se não acabam entregando algum prémio ao Afonso por este ‘romance’. Não era giro? E se ele o dedicasse, dedicava a quem?Pois, ABP, se calhar este terreno não é assim tão pouco movediço como sugeres ao rebater o meu argumento dizendo: “Queremos, afinal, o medo, a vergonha, o cinzentismo? Se os tivermos, como contrariar “a amorfia da ficção portuguesa atual” de que fala Vaz Pinto, uma vez mais sem justificar nada?” Podia fingir que não escreveste isto. É estúpido como a merda, e olha minha filha, acabaram-se os perdões. 
Vamos então fechar isto e acreditem que alinhei uma série de outras passagens do livro para forrar bem as paredes das minhas tão injustificadas afirmações sobre o seu teor. Interessa-me agora focar um ponto decisivo que António Guerreiro tornou nefastamente claro na sua crónica no “Público”, há algumas semanas: “Morte às ficções”, chamava-se. E nela, lia-se esta problemática definição dos actuais horizontes literários: “A ficção, segundo uma tabela de classificações corrente que actualiza a Poética de Aristóteles, é o que fica excluído da não-ficção. Aplicada a lei da reversibilidade, resulta como verdadeira a proposição simétrica: não-ficção é tudo aquilo que sobra da ficção. 
A citação vai ficar muito longa, mas como, por esta altura, o boneco para quem estou a falar me oferece o meu próprio reflexo nos seus grandes olhos de vidro, posso bem estender-me sem preocupações de aborrecer a audiência: “Mas não vale a pena determo-nos em classificações complexas, elaboradas por génios da teoria para ordenar e racionalizar a indústria e o comércio dos livros. 
Há nesta crónica um conceito que me parece crucial para compreender a tal amorfia da ficção portuguesa actual, e quem não consiga acompanhar este passo dado pelo nosso mais destacado crítico literário devia desistir destas coisas e abrir uma hamburgueria gourmet ou um salão de nails: “O que interessa é saber por que diabo fornece um jornal ficções aos seus leitores, no dia de Júpiter, tendo até contratado para isso um profissional do ofício, quando aquilo de que precisamos é de contra-ficções. Ficções, há-as aos montes, o mundo está saturado delas, não há um segundo em que se faça silêncio neste débito ficcional imparável, engolimo-las em excesso, até chegar o momento de vomitá-las. Sem pudor nem delicadeza, vomitamo-las porque elas são indigestas e nauseabundas. Estamos capturados por bem oleadas máquinas narrativas, as ficções são milícias da mobilização total, sejam elas completamente inventadas ou 'tendencialmente inspiradas numa notícia'. Sim, inspiradas numa notícia, porque no mundo que os media imaginam e dão forma não há factos nem realidades, há apenas notícias. O mundo é feito para resultar numa notícia. É isto a mediarquia (seja-me permitido pedir emprestado este neologismo). 
Se a ladainha das fake news não deixa ninguém indiferente, são muito poucos na verdade aqueles que se mostram capazes de traçar o risco e ligar os pontos, percebendo o quanto a cultura oxigenada que se tem patrocinado nos desarma. O quanto estas ficções não fazem mais que entretecer lérias, e como este livro de Afonso Reis Cabral não precisa de ser assim tão mau para ser uma grande idiotice. 
A questão é que tinha de ser um livro extraordinário, uma obra realmente “brilhante”, como diz dela João Céu e Silva. E, uma vez mais, creio que iremos ficar à espera que o céu não se perca nas silvas, e nos venha então explicar porque é que encontrou nesta reportagem romanceada uma verdade mais profunda e que não tinha ainda sido posta a descoberto. 
Muito longe de conceber uma moral do excluído, de nos elucidar sobre o conflito interior dos personagens, o fracasso que aponto a “Pão de Açúcar” é a incapacidade de nos servir, numa situação em que isso era imperativo, uma contra-ficção. Na crítica que lhe fiz, não acusei o livro de falhar na sua engenharia própria desses produtos bem estudados de escrita criativa – disciplina que até já surge nos currículos do ensino superior, sendo leccionada entre nós por pessoas que nunca provaram ter capacidade de escrever qualquer coisa que sobreviva para lá das semanas de foguetório mediático. Aquilo de que o acusei foi de não passar de mais uma dessas “ficções [que] são como a música melosa que passa, em looping nos supermercados, nos centros comerciais, nas salas de espera”. 
E agora, permitam-me que me aproprie eu de uma matéria que não teria sido capaz de diagnosticar nos meus próprios termos, e conclua-se a citação de AG: “O ludíbrio das ficções das quintas é o de querer parecer que se instaura aí um momento de interrupção, uma pausa para uma outra ordem do discurso, um silêncio para tornar audível um rumor literário. Nada disso, as ficções mediárquicas não têm nada ver com a literatura. São outra coisa, são uma continuação das histórias servidas diariamente por todos os meios, por todos os media. Para o diabo as histórias! Estamos cheios delas até à medula. Aquilo de que precisamos é de descontinuidade, de contra-ficções, não dessa fábrica do contínuo que produz ficções, no dia da Lua, no dia do Sol, no dia de Júpiter, no dia de Vénus, todos os dias, até no Sabat. 
O crítico conclui mencionando La littérature à l’estomac, de Julien Gracq, para asseverar que “os estômagos já não são bem os mesmos, e estão empanturrados de ficções”. E o problema face a um livro como “Pão de Açúcar” é que este nem precisa de ir ao estômago para ser digerido. Não cai lá, não é sentido como um murro, fica-se pelo bolo alimentar, não nos causa uma congestão; nada, na verdade, sai dali. E pior: a tão exímia construção das personagens, como exalta ABP, também ajuda a apagar a noção de que se tratam de reflexos de pessoas obtidos da superfície de águas turvas. 
"A tua vida/ foi o teu pecado/ Gisberta", lê-se, ouve-se quase da boca da elegia que Alberto Pimenta dedicou ao “dote escandaloso” dela. Quanto à morte, depois de se tentar simplesmente apagar as ignominiosas circunstâncias em que aconteceu, gerir danos e cuidar dos vivos, faltava que sobre ela viessem novos bárbaros, bárbaros instruídos, cheios de boas intenções e de almas melhores que, anos depois, estendessem a toalha da sua boa consciência e fizessem o piquenique literário em cima do que há de mais escabroso. 
Nisso não diferem muito dos especuladores imobiliários que se preparam para fazer do edifício durante tantos anos abandonado e que é conhecido como Pão de Açúcar um prédio de apartamentos com lojas, e talvez, um dia, este ganhe a placa a assinalar o indescritível terror que ali se viveu. 
Mas porque fui desafiado por ABP a justificar-me, terminemos com o retrato que Afonso Reis Cabral faz de Gisberta, coisa de que nem falei na crítica, e que me parece o ponto mais fraco desta estúrdia ficção. Veja-se o pobre fantasma, essa figura sumida, de vestes gastas, largadas no fim da noite, quando não se sabe bem como o narrador a vislumbra anos antes, em flashback, quando tomou conta do mais velho dos rapazes (aquele condenado como homem, aquele que nunca lhe bateu, mas também não impediu os outros...). Vê-a como uma Xerazade com as crianças de volta a pedirem-lhe que lhes conte histórias. Um pouco como esses leitores que tudo o que pedem à literatura são histórias: “Queriam que a Gi as distraísse como quem precisa de carinho. Ela falava-lhes da princesa e da abelha, do burro e do cachorro, da lâmpada mágica, do Príncipe Feliz e de muitas outras, algumas até inventava de improviso, num show de Xerazade melhor do que os espectáculos do Adam’s Apple” (pág. 103). 
Cansado para continuar a passar para aqui estes insossos parágrafos, podem ir à página 88, ler todo o capítulo 18, e ver como o autor chega a abandonar quando lhe convém o narrador, sempre que os ecos da investigação não se encaixam inteiramente na sua perspectiva, e aí, é um desculpem lá o jeitinho, mas cá vai disto. 
E mesmo livre da consciência agarotada, não temos mais do que um esbatido rastro, figuras empalhadas, um desamparo comum, de torneira pingando sobre o adjectivo mais óbvio, meio flácido; um ferro velho das presunções de uma classe média educada com o televisor sempre ligado, a costurar uma visão tacanha, nem fantasia nem beleza e nem o desastre na sua potência mais sórdida. Só personagens de telenovela. Ao invés de uma investigação a partir de detalhes menosprezados, abrindo caminho para impensáveis e ponderosas revisões da matéria dada, respirando pela boca na linha directa que vem do coração, para trazer à história esse outro lado, fosse ele mais negro ou luminoso, procede-se a um montar do puzzle sem particular relevo ou perícia, numa reconstrução que se contenta com a mais banal hierarquia das suposições, e isto faz do escritor apenas esse artífice da consciência do homem médio. Pode ser suficiente para qualquer painel de comentário na televisão, mas, chegando à literatura, revela apenas a indigência do seu projecto. Falta de tesão inventivo, de desejo produtor de realidade, capaz de insuflar vida naquilo que foi enfiado à bruta no congelador do nosso mal-estar. 
Estou no fio, ABP. Não tenho mais nada, senão, como último argumento, dizer-te que são as três e vinte da manhã. Já passa da hora do lobo. Dei-te mais atenção do que o outro deu ao Capuchinho Vermelho. Agora, tira daqui a moral que quiseres.

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