quarta-feira, outubro 16, 2013


CRATO, ESPADA E O NOVO REALISMO
 

O facto está a causar uma grande perplexidade no meio das Ciências Sociais e Humanas e já motivou uma carta das respectivas Associações Científicas ao ministro da Educação: o novo Conselho Científico das Ciências Sociais e Humanas da Fundação para a Ciência e Tecnologia é constituído maioritariamente por pessoas cujo percurso académico é, em muitos casos, destituído de mérito e, na sua maioria, nada tem que ver com as áreas científicas próprias deste Conselho, presidido agora  por uma Professora  do Centro de Ciências Forenses, da Faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade de Coimbra. A cena da implosão – desta feita, na investigação – é um primitivo desígnio lá pelos lados do Ministério da Educação e Ciência. O que aqui se passa é completamente coerente com o percurso intelectual de Nuno Crato e o que ele representa. A sua batalha contra o “eduquês” baseou-se num método comum e eficaz, quando o alvo é um público de espectadores: consiste em encontrar um adversário fanatasma e dar-lhe um nome. A escola e os programas de ensino tinham e têm problemas. Mas aquilo a que Crato e a constelação onde ele brilhou chamaram “eduquês” nunca passou de um diagnóstico superficial, muitas vezes errado, sempre demagógico. Não esqueçamos que da missão educadora de Nuno Crato faz também parte a tradução de um livro chamado “Imposturas Intelectuais”, de dois cientistas, Alan D. Sokal e Jean Bricmont, que é uma denúncia dos usos excessivos e fraudulentos do vocabulário e conceitos das ciências por alguns filósofos que os autores do livro classificam como “pós-modernos”. Esse livro deu origem a uma interessante polémica, mas também foi usado como intrumento por toda essa constelação de “realistas” que promete “realidade” e “verdade” a baixo preço e alimenta um ressentimento anti-filosófico. Desta constelação de novos “realistas”, o elemento mais caricato, aquele que a revela em toda a sua mediocridade – e que, como não podia deixar de ser, integra o novo Conselho Científico – é João Carlos Espada, uma versão dura do “realismo” cratiano. Consiste o seu discurso na seguinte manobra argumentativa: arranja-se um adversário fantasma (por exemplo, o filósofo pós-moderno) ao qual se atribui um montão de idiotices e o pecado maior do “relativismo” -  um “ismo” que, na boca do novo realista, é dotado da maior evidência. Como se trata de um adversário fantasma, é impossível encontrar alguém que corresponda ao que Espada & Companhia - ele não está apenas bem tutelado pelo ministro, está bem acompanhado - chamam com o apelido de “pós-moderno”, expressão idiomática para designar um charlatão que obscurece a realidade ou até a faz evaporar. O novo realista do tipo Espada, ao fazer a genealogia do charlatanismo remonta a Platão, mas detém-se com demora e indignação em Nietzsche. Ninguém é mais odioso do que o filósofo que disse: “Não existem factos, só interpretações”. É uma frase que o mais obtuso senso comum, o do novo realista, lê como o faria alguém que nunca teve acesso ao Nietzsche explicado às crianças. O novo realista só encontra conforto e segurança nas proposições dogmáticas do senso comum, da doxa (a opinião, pois claro) e por isso está sempre a chamar à ordem quem delas se afasta. O seu gesto preferido consiste em agitar espectros porque os argumentos de que dispõe e que repete exaustivamente só valem contra um adversário fantasma e não servem para nenhum verdadeiro debate. Um Conselho Científico das Ciências Sociais e Humanas que integra o João Carlos Espada vale, em si mesmo, como um programa de investigação.    

- António Guerreiro
in Ípsilon (11.10.2013) 

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