sexta-feira, julho 05, 2013

A TEOLOGIA DOS EXAMES


É muito provável que alguém bem treinado nos estudos literários – digamos, um professor universitário – e com um vasto saber na área da literatura portuguesa descubra que passaria por algumas dificuldades se fosse submetido ao exercício de análise e interpretação de um texto literário, exigido pelo exame de Português do 12º ano (na circunstância, um poema de Ricardo Reis) e pelo exame de Literatura Portuguesa do 10º e 11º anos (neste caso, uma cantiga de amor de D. Dinis). A dificuldade reside sobretudo em nos colocarmos em perfeita sintonia com as perguntas, em aceder à sua lógica, em aceitar as evidências interpretativas que elas pressupõem. Em suma: em falar o mesmo “idioma” que elas. Trata-se sempre de perguntas que não convidam o aluno a ler e interpretar, mas a repetir leituras e interpretações que lhe foram fornecidas. A um número restrito de palavras que funcionam como um código interpretativo, o aluno deve responder com um discurso preparado e treinado ao longo do ano. Algum examinando que se desloque ligeiramente em relação ao “cenário de resposta” pode provocar cataclismos em cadeia: em primeiro lugar, afasta-se dos “critérios específicos de classificação” (lavrados em quinze páginas de prescrições e de previsões de desvios), o que significa fugir do horizonte dos “descritores do nível de desempenho no domínio específico da disciplina”. E aqui começamos a perceber o porquê das perguntas que parecem encerrar uma resposta cristalizada: este fechamento é consubstancial às quinze páginas de “critérios específicos de classificação” e às tabelas de quantificações previstas. Para um não iniciado ao mundo dos exames, um critério que pretende aferir a “interpretação do texto, fundada no diálogo entre o leitor e as referências textuais entendidas no seu contexto” é algo inverificável. Mas para os examinadores parece um critério rigoroso, capaz de determinar se a resposta do aluno está conforme às normas elaboradas no tratado de quinze páginas. A doutrina correctiva que acompanha cada prova tem a função de não permitir qualquer discrepância, aspira a uma justiça infalível e universal: introduz o rigor do regime digital no mundo do analógico. Este imperativo de rigor transbordou para os protocolos do discurso com que o examinador se dirige ao examinando. Numerosas - e às vezes anedóticas - são as prescrições. Mas há uma que, na prova de Português e de Literatura Portuguesa, ganha o estatuto de refrão: toda a resposta deve ser “bem estruturada”. E um dos critérios para avaliar um texto que o aluno é convidado a escrever partindo de um tema é o da “estruturação temática e discursiva”. Aparentemente, toda a gente envolvida no protocolo do exame sabe muito bem o que significa e como se cumpre tal critério ao milímetro. A profusão de normas e a longa extensão dos critérios têm ainda outro objectivo: transformam os professores em máquinas de classificação, consagram uma relação entre a entidade examinadora e os examinandos que aspira à objectividade absoluta, não conspurcada por mediações profanas. Tudo isto, a par dos conselhos e prescrições escritos nas provas, fazem dos exames um ritual muito complexo. Somos convidados a entrar neles como num templo. Mas, uma vez lá dentro, a fé a que eles fazem apelo (pelo menos, os de Português e Literatura Portuguesa) só pode vacilar por todos os lados os lados: eles são um louvor a ídolos de pés de barro.

- António Guerreiro
in Ípsilon (28.06.2013)

Sem comentários: