sexta-feira, fevereiro 22, 2013


Quando é que de ti falarei sem voz de homem
para que não se acabe nunca, como o rio
não deixa de dizer a sua tristeza e tem
já dito mais palavras que eu mesmo.
Quando é que estarei bem fora ou fundo
do que na margem é um caminho
que me limita, como o bosque à ave.
Porém, será capaz de o repetir,
capaz de amar duas vezes como agora?
Este raio de sol, que é uma nota
do órgão, vibra com a música
de novembro e reflecte seus distintos
modos de fazer cair as folhas vivas.
Não é apenas o vento que as derruba, mas
também a sua obrigação, seus vislumbres
de um outono essencial. Se encontra um sítio
rastreado, a nova semeadura cresce
longe de antigos brotos arrancados;
mas resta-lhe sempre alguma força,
alguma sede daqueles, algum doce
cabecear que volta a dividir-se
e a oferecer ao ar um odor em mil sentidos.
Quando é que de ti falarei sem voz de homem.
Quando. A minha boca alcança apenas o sinal,
só muito confusamente o interpreta.
E há duras verdades de um contínuo
reverdecer, há esperanças que não chegam
a sobrevir ao tempo e a convertê-lo
em fonte seca de planura, como
há terrenos que não filtram o barro.

- Claudio Rodríguez

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