PALIATIVOS, Fernando Pinto do Amaral
Paliativos, de Fernando Pinto do Amaral,
tematiza, quer através do título desta poderosa
recolha, quer por meio dos momentos
em que ela se organiza, dois princípios
fundamentais: morte e tempo.
O título de Paliativos funciona como
um primeiro depoimento do sentido aqui
primordialmente em causa. Dividido em
três passos — «Outrora Agora», «Requiem
», «Epicentros» —, o livro define
um arco de conteúdo que se ergue sobre as
ondas de choque que se geram a partir da
morte, entendida como marco existencial
e como princípio ontológico. Uma constatação
firmemente implantada quando se
reconhecem, em versos tecnicamente inatacáveis,
os seus «náufragos de Caronte»
(p. 13).
Estes poemas lançam mão da morte enquanto
circunstância do percurso biográfico
— «Podes entrar, vá lá, não tenhas
medo: / é o mês de janeiro e a esta hora/
a noite cai depressa» (p. 38) — e enquanto
elemento (des)estruturante do humano
— «cada vez / mais próximo do grito
onde nasceste / há décadas, há séculos, há
milénios» (p. 47). Por outro lado, é irrevogável
a importância do tempo, no tecido e
no alcance destas composições — «Não
havia passado nem futuro / e agosto era
um mês sem princípio nem fim» (p. 15).
A descontinuidade e a dissolução que estes
versos instauram amplia‑se
em amplos
lastros, ao longo de Paliativos. Em consequência,
o sujeito encontra‑se,
em grande
parte dos casos, no olho do furacão, na
iminência e na sequência de um desastre
inevitável: a morte. Não por acaso, o grupo
derradeiro do livro se chama «Epicentros
».
O título da secção inicial, «Outrora
Agora», transporta um subtil eco pessoano
— «E eu era feliz? Não sei: / Fui‑o
outrora
agora»1 —, além de poder evocar o
romance homónimo de Augusto Abelaira,
que tomava por epígrafe, precisamente,
aquele poema de Pessoa. Aqui se instala a
premência da tensão entre passado e presente,
que se vai intensificando, ao longo
de Paliativos, e desenvolvendo de formas
distintas. Em versos como «meio século é
muito pouco / desde o primeiro dia» (p.
10), pelo subtil paradoxo gerado entre a
instância cronológica — indiciada na ex240
pressão «meio século», que remete para o
percurso existencial do sujeito — e a cláusula
que, de certa forma, a anula — «desde
o primeiro dia» —, não está tanto em
causa o cubículo estreito dos efeitos potencialmente
biográficos, que aqui poderiam
(e podem) estar em causa, mas, precisamente,
a revogação deles. É desde sempre
— «desde o primeiro dia» — que o tempo
é questionável, por escasso — «muito
pouco», na síntese sabiamente elíptica do
verso. Demais, seria possível interpretar
o segmento «primeiro dia» enquanto
próprio ao sujeito (de novo, o esqueleto
da circunstância biográfica), ou como cabendo
ao domínio do absoluto. No poema
significativamente intitulado «Elegia» —
«Regressa neste inverno o tempo exausto
/ de outros invernos Rostos submersos
/ sorriem e emergem devagar / do frio rio
dos versos» (p. 10) —, está patente uma
administração cautelosa, e textualmente
convincente, de uma técnica que consiste
na ampliação e sedimentação do princípio
metafórico, cujo lastro se faz sentir do
segundo para o quarto verso, neste caso.
O adjectivo «submersos» inicia a incidência
de uma carga semântica da esfera
de água, que regressará, sob forma nominal,
na inclusão do termo «rio». Acresce
que essa participação vocabular se associa,
por via sonora, ao adjectivo que o precede,
e que fomenta, numa articulação de dois
monossílabos, um efeito de eco, que se não
teme, mas parece valorizar a sugestão de
corrente e de repetição antes inaugurada.
Uma partitura que, de resto, se retomará
na coda do poema: uma quadra que funde,
sem intentar resolvê‑la,
a tensão anteriormente
precipitada — «Talvez ainda
saibas mergulhar / no mesmo rio de sempre
/ e no entanto é cada vez mais fria / a
água do passado» (p. 10). Custa a saber se,
aqui, como noutros momentos textuais, a
lição é a de Heraclito, ou se o rio é o «de
sempre».
Em «Requiem», planta‑se
a semente
de um tema, o da morte, desde as primeiras
instâncias desenhado. Este segmento
constitui a homenagem e a reacção possíveis.
Uma das epígrafes que descerra
«Requiem» provém de Ronsard: «[…]
Afin que vif et mort ton corps ne soit
que roses» (retirado de um dos sonetos
da sequência «Sur la mort de Marie»).
E é, afinal, de coexistência que se trata:
entre vida e morte, questionadas, pelo
poderio da memória, as barreiras que as
separam. Uma contiguidade crítica: não
propriamente harmoniosa, antes tumultuária.
No amplo poema «Biblioteca»,
Fernando Pinto do Amaral dá forma a
essa dualidade — «Hoje que te conheço
desde sempre, / desde a memória intacta
de outras vidas / que alguém viveu por
nós ou que vivemos / ao assumir a forma
de outros corpos, / assusta‑me
o sentido
agora súbito / de tudo o que ganhámos ao
perdermo‑nos
/ outra vez um no outro»
(p. 33). Um passo em que parecem reviver,
obliquamente, versos de Ovídio — «De
formas mudadas em novos corpos leva‑me
o engenho / a falar. Ó deuses, inspirai
a minha empresa (pois vós / a mudastes
também), e conduzi ininterrupto o meu
canto / desde a origem primordial do
mundo até aos meus dias.»2
A divisória final de Paliativos, «Epicentros
», em vez de trazer propriamente apaziguamento,
ou certezas, renova o modo
dubitativo, inquisidor, que as sequências
anteriores haviam inaugurado. Trata‑se
de
um conjunto de catorze poemas não intitulados,
apenas numerados. E, por exemplo,
o terceiro do conjunto — «Não sabes
onde moras, onde vais / quando o universo
inteiro te pergunta / as letras desse nome
que perdeste» (p. 49) — entra em diálogo
com passos anteriores, como: «Não sabes
Saberás cada vez menos / o que ainda procuras
/ outro corpo uma alma» (p. 9).
O paralelismo que entre ambos se cria apenas reforça a fundamental indeterminação
que permeia estes poemas. Incerteza e
indeterminação patentes, ainda, numa estrutura
frásica como «a que chamas», que
ocorre, quase como um mantra, em vários
momentos de Paliativos — «Demasiada
sombra reconheces / nisso a que chamas
vida sem saber / onde estás quando a noite
/ irradia outra luz / e acorda devagar todos
os mortos» (p. 11) / «Isso a que chamas /
vida / aguarda outro destino / resplandece
num rosto e atravessa / cento e cinquenta
anos num segundo» (p. 19). O que gera,
além dos anteriormente referidos, nexos
de proximidade que são de referir: «Saberás
porventura quem te move / a bússola
dos passos desse corpo / entre a lama dos
nomes esquecidos / e as cinzas que guardaste
nessa urna / a que chamas agora
coração?» (p. 58). Confronte‑se
com a
sequência «incerto sarcófago do corpo /
disperso uma vez mais no descompasso /
da cidade infiel que ainda te dói, / quando
tudo se cala, quando o frio / se infiltra já na
areia dos teus ossos, / na pedra a que chamavas
coração» (p. 50) [itálicos meus].
E atente‑se
no facto de não só a estrutura
«a que chamas» se repetir, mas também o
par subentendido «urna»/«sarcófago».
Acrescente‑se
que a rotação no tempo verbal
(no último exemplo citado: do presente
para o imperfeito do indicativo) agudiza
o modo elegíaco que se vai imprimindo à
dicção do verso, pela impossibilidade que
a circunstância «passado» implanta. Por
outro lado, à incerteza, alia‑se
o reforço da
carga metafórica contida nos dois vocábulos,
portadores de uma tonalidade fúnebre
— e ambos, literalmente, transportadores
de morte: «urna»/«sarcófago».
A despeito da divisão trimembre de
Paliativos — organicamente validada na
composição do livro —, são vários os momentos,
na globalidade da obra, que comunicam
entre si, em nexos inteligentes
e motivantes. Se um poema elege focar‑se
em «velhas sílabas / abertas na cratera
de uma boca / à espera de um clarão que
te devolva / a memória de um mundo de
além‑túmulo
» (p. 50), uma referência
como «além‑túmulo
» poderá funcionar
como um sinal de ligação com uma das
epígrafes iniciais de Paliativos, de Chateaubriand:
«Lorsqu’on regarde sa vie
passée, on croit voir sur une mer déserte
la trace d’un vaisseau qui a disparu.» Essa
embarcação desaparecida sobre um mar
deserto, e que é a imagem do passado, no
trecho do autor das Memórias de Além‑Túmulo,
bem poderia ser um dos emblemas
deste livro. O passado, desde a sua
posição ‘privilegiada’ de coisa pretérita
mas terrivelmente visível, revisitável, possui
essa carga ao mesmo tempo encantatória
e elegíaca que perpassa este livro de
Fernando Pinto do Amaral.
Em sequências como «entre cada palavra
entre cada / sinapse / em noites como
esta quando aprendes / a amar o próprio
nada quando rompes / a membrana do
tempo» (p. 12), cada segmento funciona
como uma espécie de dímetro. A separação
espacial, no verso, entre esses núcleos
(uma disposição amplamente utilizada
ao longo do livro) acentua a estruturação
(neste caso, binária), atribuindo a cada
divisória uma identidade de sentido e de
som. Repare‑se,
por outro lado, na estruturação
estabelecida em dois versos do
poema «Livros»: «vidas mortas / ainda
à tua espera» (p. 13) / «hologramas / na
máquina do tempo» (ibid.). Essa opção
vocabular, rítmica e até versificatória (a
quase total correspondência do número de
sílabas, de um para outro verso), estabelece
uma complementaridade entre notação
semântica e aspecto morfológico e tímbrico.
Se a expressão «vidas mortas» — agudo
contra-senso aparente que rasa sobre
a factualidade tremenda da morte — é
comutada pelos «hologramas» do segundo
verso, acrescenta‑se
um sentido de algidez, de artificialismo, que se sobrepõe à
anterior carnalidade opressiva.
Em Paliativos, Fernando Pinto Amaral
construiu uma aguda e penetrante reflexão
sobre a caducidade da vida, simultaneamente
firmando, nos seus versos, uma
sóbria questionação do tempo enquanto
elemento organizador da experiência humana.
- Hugo Pinto Santos
in Colóquio Letras, Janeiro 2013
Notas
1 Fernando Pessoa, Obra Poética, Rio de Janeiro,
Editora Nova Aguilar, 1976, p. 141.
2 Ovídio, «Prólogo», Metamorfoses, trad. Paulo
Farmhouse Alberto, Lisboa, Livros Cotovia,
2007, p. 35, vv. 1‑4.
Sem comentários:
Enviar um comentário