domingo, fevereiro 03, 2013

PALIATIVOS, Fernando Pinto do Amaral


Paliativos, de Fernando Pinto do Amaral, tematiza, quer através do título desta poderosa recolha, quer por meio dos momentos em que ela se organiza, dois princípios fundamentais: morte e tempo.
O título de Paliativos funciona como um primeiro depoimento do sentido aqui primordialmente em causa. Dividido em três passos — «Outrora Agora», «Requiem », «Epicentros» —, o livro define um arco de conteúdo que se ergue sobre as ondas de choque que se geram a partir da morte, entendida como marco existencial e como princípio ontológico. Uma constatação firmemente implantada quando se reconhecem, em versos tecnicamente inatacáveis, os seus «náufragos de Caronte» (p. 13).
Estes poemas lançam mão da morte enquanto circunstância do percurso biográfico — «Podes entrar, vá lá, não tenhas medo: / é o mês de janeiro e a esta hora/ a noite cai depressa» (p. 38) — e enquanto elemento (des)estruturante do humano — «cada vez / mais próximo do grito onde nasceste / há décadas, há séculos, há milénios» (p. 47). Por outro lado, é irrevogável a importância do tempo, no tecido e no alcance destas composições — «Não havia passado nem futuro / e agosto era um mês sem princípio nem fim» (p. 15). A descontinuidade e a dissolução que estes versos instauram amplia‑se em amplos lastros, ao longo de Paliativos. Em consequência, o sujeito encontra‑se, em grande parte dos casos, no olho do furacão, na iminência e na sequência de um desastre inevitável: a morte. Não por acaso, o grupo derradeiro do livro se chama «Epicentros ».
O título da secção inicial, «Outrora Agora», transporta um subtil eco pessoano — «E eu era feliz? Não sei: / Fui‑o outrora agora»1 —, além de poder evocar o romance homónimo de Augusto Abelaira, que tomava por epígrafe, precisamente, aquele poema de Pessoa. Aqui se instala a premência da tensão entre passado e presente, que se vai intensificando, ao longo de Paliativos, e desenvolvendo de formas distintas. Em versos como «meio século é muito pouco / desde o primeiro dia» (p. 10), pelo subtil paradoxo gerado entre a instância cronológica — indiciada na ex240 pressão «meio século», que remete para o percurso existencial do sujeito — e a cláusula que, de certa forma, a anula — «desde o primeiro dia» —, não está tanto em causa o cubículo estreito dos efeitos potencialmente biográficos, que aqui poderiam (e podem) estar em causa, mas, precisamente, a revogação deles. É desde sempre — «desde o primeiro dia» — que o tempo é questionável, por escasso — «muito pouco», na síntese sabiamente elíptica do verso. Demais, seria possível interpretar o segmento «primeiro dia» enquanto próprio ao sujeito (de novo, o esqueleto da circunstância biográfica), ou como cabendo ao domínio do absoluto. No poema significativamente intitulado «Elegia» — «Regressa neste inverno o tempo exausto / de outros invernos Rostos submersos / sorriem e emergem devagar / do frio rio dos versos» (p. 10) —, está patente uma administração cautelosa, e textualmente convincente, de uma técnica que consiste na ampliação e sedimentação do princípio metafórico, cujo lastro se faz sentir do segundo para o quarto verso, neste caso. O adjectivo «submersos» inicia a incidência de uma carga semântica da esfera de água, que regressará, sob forma nominal, na inclusão do termo «rio». Acresce que essa participação vocabular se associa, por via sonora, ao adjectivo que o precede, e que fomenta, numa articulação de dois monossílabos, um efeito de eco, que se não teme, mas parece valorizar a sugestão de corrente e de repetição antes inaugurada. Uma partitura que, de resto, se retomará na coda do poema: uma quadra que funde, sem intentar resolvê‑la, a tensão anteriormente precipitada — «Talvez ainda saibas mergulhar / no mesmo rio de sempre / e no entanto é cada vez mais fria / a água do passado» (p. 10). Custa a saber se, aqui, como noutros momentos textuais, a lição é a de Heraclito, ou se o rio é o «de sempre».
Em «Requiem», planta‑se a semente de um tema, o da morte, desde as primeiras instâncias desenhado. Este segmento constitui a homenagem e a reacção possíveis. Uma das epígrafes que descerra «Requiem» provém de Ronsard: «[…] Afin que vif et mort ton corps ne soit que roses» (retirado de um dos sonetos da sequência «Sur la mort de Marie»). E é, afinal, de coexistência que se trata: entre vida e morte, questionadas, pelo poderio da memória, as barreiras que as separam. Uma contiguidade crítica: não propriamente harmoniosa, antes tumultuária. No amplo poema «Biblioteca», Fernando Pinto do Amaral dá forma a essa dualidade — «Hoje que te conheço desde sempre, / desde a memória intacta de outras vidas / que alguém viveu por nós ou que vivemos / ao assumir a forma de outros corpos, / assusta‑me o sentido agora súbito / de tudo o que ganhámos ao perdermo‑nos / outra vez um no outro» (p. 33). Um passo em que parecem reviver, obliquamente, versos de Ovídio — «De formas mudadas em novos corpos leva‑me o engenho / a falar. Ó deuses, inspirai a minha empresa (pois vós / a mudastes também), e conduzi ininterrupto o meu canto / desde a origem primordial do mundo até aos meus dias.»2
A divisória final de Paliativos, «Epicentros », em vez de trazer propriamente apaziguamento, ou certezas, renova o modo dubitativo, inquisidor, que as sequências anteriores haviam inaugurado. Trata‑se de um conjunto de catorze poemas não intitulados, apenas numerados. E, por exemplo, o terceiro do conjunto — «Não sabes onde moras, onde vais / quando o universo inteiro te pergunta / as letras desse nome que perdeste» (p. 49) — entra em diálogo com passos anteriores, como: «Não sabes Saberás cada vez menos / o que ainda procuras / outro corpo uma alma» (p. 9). O paralelismo que entre ambos se cria apenas reforça a fundamental indeterminação que permeia estes poemas. Incerteza e indeterminação patentes, ainda, numa estrutura frásica como «a que chamas», que ocorre, quase como um mantra, em vários momentos de Paliativos — «Demasiada sombra reconheces / nisso a que chamas vida sem saber / onde estás quando a noite / irradia outra luz / e acorda devagar todos os mortos» (p. 11) / «Isso a que chamas / vida / aguarda outro destino / resplandece num rosto e atravessa / cento e cinquenta anos num segundo» (p. 19). O que gera, além dos anteriormente referidos, nexos de proximidade que são de referir: «Saberás porventura quem te move / a bússola dos passos desse corpo / entre a lama dos nomes esquecidos / e as cinzas que guardaste nessa urna / a que chamas agora coração?» (p. 58). Confronte‑se com a sequência «incerto sarcófago do corpo / disperso uma vez mais no descompasso / da cidade infiel que ainda te dói, / quando tudo se cala, quando o frio / se infiltra já na areia dos teus ossos, / na pedra a que chamavas coração» (p. 50) [itálicos meus]. E atente‑se no facto de não só a estrutura «a que chamas» se repetir, mas também o par subentendido «urna»/«sarcófago». Acrescente‑se que a rotação no tempo verbal (no último exemplo citado: do presente para o imperfeito do indicativo) agudiza o modo elegíaco que se vai imprimindo à dicção do verso, pela impossibilidade que a circunstância «passado» implanta. Por outro lado, à incerteza, alia‑se o reforço da carga metafórica contida nos dois vocábulos, portadores de uma tonalidade fúnebre — e ambos, literalmente, transportadores de morte: «urna»/«sarcófago».
A despeito da divisão trimembre de Paliativos — organicamente validada na composição do livro —, são vários os momentos, na globalidade da obra, que comunicam entre si, em nexos inteligentes e motivantes. Se um poema elege focar‑se em «velhas sílabas / abertas na cratera de uma boca / à espera de um clarão que te devolva / a memória de um mundo de além‑túmulo » (p. 50), uma referência como «além‑túmulo » poderá funcionar como um sinal de ligação com uma das epígrafes iniciais de Paliativos, de Chateaubriand: «Lorsqu’on regarde sa vie passée, on croit voir sur une mer déserte la trace d’un vaisseau qui a disparu.» Essa embarcação desaparecida sobre um mar deserto, e que é a imagem do passado, no trecho do autor das Memórias de Além‑Túmulo, bem poderia ser um dos emblemas deste livro. O passado, desde a sua posição ‘privilegiada’ de coisa pretérita mas terrivelmente visível, revisitável, possui essa carga ao mesmo tempo encantatória e elegíaca que perpassa este livro de Fernando Pinto do Amaral.
Em sequências como «entre cada palavra entre cada / sinapse / em noites como esta quando aprendes / a amar o próprio nada quando rompes / a membrana do tempo» (p. 12), cada segmento funciona como uma espécie de dímetro. A separação espacial, no verso, entre esses núcleos (uma disposição amplamente utilizada ao longo do livro) acentua a estruturação (neste caso, binária), atribuindo a cada divisória uma identidade de sentido e de som. Repare‑se, por outro lado, na estruturação estabelecida em dois versos do poema «Livros»: «vidas mortas / ainda à tua espera» (p. 13) / «hologramas / na máquina do tempo» (ibid.). Essa opção vocabular, rítmica e até versificatória (a quase total correspondência do número de sílabas, de um para outro verso), estabelece uma complementaridade entre notação semântica e aspecto morfológico e tímbrico. Se a expressão «vidas mortas» — agudo contra-senso aparente que rasa sobre a factualidade tremenda da morte — é comutada pelos «hologramas» do segundo verso, acrescenta‑se um sentido de algidez, de artificialismo, que se sobrepõe à anterior carnalidade opressiva.
Em Paliativos, Fernando Pinto Amaral construiu uma aguda e penetrante reflexão sobre a caducidade da vida, simultaneamente firmando, nos seus versos, uma sóbria questionação do tempo enquanto elemento organizador da experiência humana.

- Hugo Pinto Santos
in Colóquio Letras, Janeiro 2013

Notas
1 Fernando Pessoa, Obra Poética, Rio de Janeiro, Editora Nova Aguilar, 1976, p. 141.
2 Ovídio, «Prólogo», Metamorfoses, trad. Paulo Farmhouse Alberto, Lisboa, Livros Cotovia, 2007, p. 35, vv. 1‑4.

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