John Donne fez-se retratar num simulacro de corpo morto – gesto de derradeira contemplação da morte, num poeta em que Thánatos e Eros de forma tão intricada se digladiavam e mesclavam. A atitude de uma poesia como a de Inês Dias apenas tangencialmente se aproximaria da posição do inglês. Uma das secções de In Situ intitula-se, expressivamente, «A Morte». No entanto, a consideração da morte é, nesta autora, algo de fundamentalmente diferente. Desde logo, forma um dos veios temáticos que percorrem o seu segundo livro de poesia – «os pulmões docemente inundados/ de mar, capela imperfeita à beleza/ de que nos queremos salvar» (p.11). No entanto, é como se a morte fosse, não objecto de contemplação, ou mera decorrência da condição mortal, mas um substrato que enforma e condiciona o vivido, e lhe dá sentido – atribuindo-lhe cambiantes carregadas, mas que a palavra poética verte com inusitada sobriedade. Dir-se-ia que a dialéctica destes versos (não) se resolve – após a sopesada passagem pela eufonia dolente das nasais («pulmões», «inundados», «mar», «imperfeita», «nos», «queremos») – numa negação que se afirma, por assim dizer. Salvarmo-nos da beleza não será, afinal, confirmá-la, negá-la como um deus que não há como deixar de sublinhar? Não que a poesia dê respostas, mas seria possível continuar a pergunta num verso como «A beleza não nos salva, apenas o silêncio.» (p.12) Note-se, de resto, que nos versos primeiro citados é o mar, e não a água, que preenche o espaço dos pulmões (o ilimitado sobre o limitado). Como num passo já da secção «As Últimas Flores Distanciam-se» – «as veias/ com o mar inteiro lá dentro/ e os ossos ainda tão fundo» (p.42) –, é a mesma circunstância que faz soçobrar o corpo sob um langor irresistível e terrível, o da morte, liminarmente representado no mar que cresce nos versos, e talvez não distante de certa «ternura pela morte» (p.31).Um estado de coisas que poderá considerar-se análogo ao tratamento que esta poesia faz do corpo que ama, do corpo que morre, aquele que mede os espaços inviáveis que medeiam entre um âmbito e outro, o corpo que conjura o eterno. Se, por exemplo, se inculca «um amor que tenha/ a lealdade de um cancro» (p.25), os «dedos ligeiros» têm a qualidade de uma «nódoa negra» (id.). Os mesmos, porventura, que se sacrificam, como um totem derrubado que já não se pode reerguer, e que a consciência da morte mina e preenche de sentidos – «todos os dedos que fui/ amputando, do lado do coração,/ em castigo por não te saber tocar» (p.26). O corpo é, assim, o lugar do amor, o lugar onde começa a devastação, e onde as palavras encetam a despedida, da condição mortal que estes versos nunca deixam longe – «não há palavras que garrotem a tristeza/ sem mostrares os dentes em falta,/ sem eu contar menos um cabelo teu/ até ao infinito» (p.27).Marcadamente frugal, o thesaurus de Inês Dias procede sempre com acerto, sem desperdícios vocabulares ou desvios disfónicos – «este fruto esvaziado pelos pássaros:/ a minha introdução à economia de perder» (p.9). Registe-se a minuciosa inserção de termos como «introdução» ou «economia», que não funcionam ao nível mais primitivo de uma oposição concreto/abstracto, mas, num patamar declaradamente superior, por uma identificação superadora entre ambos os domínios: pássaros e abdicação são verso e reverso de uma mesma pele. Nos poemas de Inês Dias, um dos aspectos que está em causa é precisamente esse canto lúcido e suficientemente contido do que deve morrer, talvez para preservar o sentido antes que tudo cesse – «a teimosa certeza de que/ nada ficará – nós não ficaremos» (p.33)As forças propagadas por In Situ traduzem-se, ainda, numa «arqueologia de sobrevivência» (p.15), que se aplica a certa condição epocal, dorida e conscientemente geracional – «Fomos esquecendo as senhas/ que nos abriam a solidão e o espanto./ Crescemos baços, cansados, estrelas/ frias mas longe da onda que virá/ lavar o sangue do sacrifício.» (p.15) –, que possui a mesma intensidade elegante com que estes poemas tocam outros quadrantes. O modo hipotético, cautelosamente elíptico, como se ausculta a textura do tumulto social, e do marasmo que lhe fornece a baça réplica, produz versos com o ajuste dos que se seguem: «Se todas as revelações fossem revoluções/ seminais, terminais;/ e os incêndios cidades novas» (p.16). A auto-leitura que permitem não soluça uma melancolia fruste, nem se embebe de fútil panfletarismo; antes ventila o que só uma profunda lucidez permite – «Somos, afinal, dos últimos:/ desfiamos gerações, contando onda após onda/ após onda, até ao mergulho final.» (p.33).Esta brutal, esta rude máquina de sentidos que é o poema, este exercício imemorial de palavras, consegue quebrar a dicotomia dentro/fora – «É primeiro a chuva/ lá fora, em bátegas,/ pressentimento de agulhas frias/ atrás de uma porta.// E cá dentro já não é a casa/ que se aquece sem nós/ antes o negro ao fundo do negro,/ sem almofadas nem gato que nos afaguem as mãos.// Consumimo-nos rente ao osso,/ extraímos o último minério da boca –/ palavras e dentes racionados,/ menos fome, menos fôlego, menos fogo.» (p.10). Fá-lo através da sagaz introdução de um terceiro factor, o elemento revolucionário. Uma intrusão marcada pelo estágio transicional da expressão «política de terra queimada» (id.), que dará lugar, na última estrofe (um dístico lapidar), à proposição ‘política’ da composição, e que cinde o lirismo antes enunciado, sempre de forma sibilina, suspeitosa – «Talvez o futuro do país/ esteja, afinal, nos doentes terminais.» (id.) De resto, a fórmula que o poema acha para concluir alarga ainda um pouco mais o binómio, dissolvendo a linearidade: do exterior para a casa; desta, para o país.O amor e a morte, o gosto dos livros, a pulsão da escrita, nada têm que ver, nestes poemas, com literatice: mais depressa se associariam a um caminho de silvas, a um plano de fuga, um acto de rebeldia, do que a qualquer plácida contemplação. Os versos de In Situ são a comedida apologia de uma revolta – «Alinhar palavras como quem ata/ lençóis para escapar ainda/ da torre em silêncio, sem livros/ nem memória de antes do sino.» (p.11) –, o reflectido cântico do ânimo em combate com o corpo – «A tristeza como uma crosta/ de mármore colada à pele.» (p.42)- Hugo Pinto Santosin Golpe d'Asa, n.º2
sábado, fevereiro 02, 2013
IN SITU, Inês Dias
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língua morta
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