sábado, fevereiro 09, 2013

Hospital


O cheiro, acima de tudo
(algo, não sei, de laboratório de alquimista e
de refeitório de beneficiência),
indica que se trata
de um universo à parte: só pode cheirar assim
a mistura da assepsia
e da putrefacção, das ligaduras e da chaga,
do quimicamente puro
e do humanamente enfermo,
na sua peculiar palpitação para sobreviver.

A luz artificial sugere uma blindagem cenográfica
diante do gotejar do tempo nos relógios:
nem a noite nem o dia.

Há apenas sombras: opta-se
pela fulguração, pelos matizes
esterilizados da cor e da luz.

Os temerosos suplicam
uma segunda opinião,
uma chave para racionalizar o infortúnio.
Uma bata pode ali ser o uniforme de um deus.

Diante da máquina de venda automática,
um paciente com a sua algália,
como diante da árvore da ciência,
sem saber o que escolher.

Nos corredores com perspectiva de túnel,
uma garota muito pálida e sem cabelo
acaricia o cabelo da boneca de olhos fixos.

Na barulhenta cafetaria,
os exegetas da fragilidade alheia
desenham no ar com os seus gestos
o contorno da incerteza.

E o cheiro, acima de tudo.


- Felipe Benítez Reyes
in Las identidades, Visor

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