quinta-feira, fevereiro 21, 2013

Fábula

A Álvaro Mutis

Idades de fogo e de ar
Juventudes de água
Do verde ao amarelo
                                   Do amarelo ao vermelho
Do sonho à vigília
                                   Do desejo ao acto
Havia um só passo que tu davas sem esforço
Os insectos eram jóias animadas
O calor repousava na borda do tanque
A chuva era um chorão de cabelo solto
Na palma da tua mão crescia uma árvore
Aquela árvore cantava ria e profetizava
Os seus vaticínios cobriam de asas o espaço
Havia milagres simples chamados pássaros
Tudo era de todos
                                   Todos eram tudo
Havia apenas uma palavra imensa e sem revés
Palavra como um sol
Um dia quebrou-se em fragmentos diminutos
São as palavras da linguagem que falamos
Fragmentos que nunca se unirão
Espelhos quebrados onde o mundo se olha destroçado

- Octavio Paz

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