domingo, fevereiro 17, 2013

Eu não sou um homem


Eu não sou um homem. Não consigo ganhar a vida, comprar coisas novas para a minha família.
Tenho acne e uma pila pequena.

Eu não sou um homem. Não gosto de futebol, nem de boxe, nem de carros.
Gosto de exprimir o que sinto. Gosto até de pôr um braço
sobre os ombros do meu amigo.

Eu não sou um homem. Não desempenharei o papel que me foi atribuído — o papel criado
pela Madison Avenue, pela Playboy, por Hollywood e pelo Oliver Cromwell.
A televisão não dita o meu comportamento.

Eu não sou um homem. Quando matei a tiro um esquilo jurei que nunca mais
voltaria a matar. Desisti da carne. Ver sangue deixa-me maldisposto.
Gosto de flores.

Eu não sou um homem. Fui preso por resistir ao recrutamento. Não dou luta
quando os homens a sério me espancam e me chamam bicha. Não gosto de violência.

Eu não sou um homem. Nunca violei uma mulher. Não odeio os negros.
Não fico emocionado quando agitam a bandeira. Não acho que deva
amar a América ou ir-me embora. Acho que devo rir-me dela.

Eu não sou um homem. Nunca tive gonorreia.

Eu não sou um homem. A Playboy não é a minha revista preferida.

Eu não sou um homem. Choro quando estou infeliz.

Eu não sou um homem. Não me sinto superior às mulheres.

Eu não sou um homem. Não uso suspensórios.

Eu não sou um homem. Escrevo poesia.

Eu não sou um homem. Medito sobre a paz e o amor.

Eu não sou um homem. Não quero destruir-te.

- Harold Norse
(tradução de Vasco Gato)

Sem comentários: