O medo não requer aprendizagem:
conhece-o na perfeição
o garoto que adivinha silhuetas aladas na escuridão,
fantasmas sigilosos com chapéus de fumo
que se escondem atrás da cortina,
na noite desgovernada.
O medo surge já dentro de nós.
Em grande medida somos
o aperfeiçoamento desse medo.
Não nos basta, segundo parece, a realidade: necessitamos
de incomodidades hermenêuticas, trevas ilusórias,
uma região inimiga em que nos adentrarmos,
descender a um submundo
no qual a razão acaba por ser uma qualidade secundária,
porque ali o real vale menos que um sonho.
Nestas alturas, já não se trata do medo nos três
tempos convencionais,
mas deste trânsito contínuo
com a aparência do estático e da perpetuidade,
desta sucessão de coisas desconexas.
O medo – quem sabe? – a não ter escapado
do tempo circular da nossa infância.
- Felipe Benítez Reyes
in Las identidades, Visor
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