terça-feira, fevereiro 12, 2013

Ah, que tu escapes


Ah, que tu escapes no instante
em que já tinhas alcançado a tua melhor definição.
Ah, minha amiga, que tu não queiras crer
nas perguntas dessa estrela recém-cortada,
que vai molhando as suas pontas noutra estrela inimiga.
Ah, se pudesse ser verdade que à hora do banho,
quando numa mesma água discursiva
se banham a imóvel paisagem e os animais mais finos:
antílopes, serpentes de passos breves, de passos evaporados,
parecem entre sonhos, sem ânsias levantar
os mais extensos cabelos e a água mais recordada.
Ah, minha amiga, se no puro mármore dos adeuses
tivesses deixado a estátua que nos podia acompanhar,
pois o vento, o vento gracioso,
estica-se como um gato para se deixar definir.

- José Lezama Lima
(tradução de Vasco Gato)

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