sábado, fevereiro 09, 2013

A noite de tormenta


Os gatos invisíveis miam debaixo de água.

O vento como um rumor de embarcações instáveis
– e esse som a expiração dos mares agitados
ao vaguear pelas ruas sem testemunhas.

A chuva é uma densidade de asas fugazes,
a desintegração de uma ave diamantina.

A lua como uma pálpebra.

E, mais que tudo, estas divagações repentinas
em torno de coisas sem razão:
os motivos insondáveis
da fragilidade do ânimo, por exemplo,
ou as argúcias melodramáticas que estabelecem
um pacto de silêncio com a tua consciência silenciosa,
enquanto cada golpe do vento
abre sinais de interrogação
a cada palavra que pronuncias,

de maneira que unes a tua perplexidade
à inocência desordenada
deste espectáculo nocturno
que parece grandioso por um momento
mas logo se rende ante si mesmo,
como o próprio pensar, como tudo.

A noite de tormenta que é a tua noite.

A noite que vai em ti se vais contigo.

- Felipe Benítez Reyes
in Las identidades, Visor

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