quarta-feira, janeiro 30, 2013

Pátria suficiente


Seria sempre uma questão de dias,
semanas desta vez. Sei perder e perco
depressa, sem a menor vergonha já volto
e fico a sós com o trovão, as mãos quase
apagadas entre a crua cintilação dos
versos, vidro moído e frágeis emendas,
o perfume e o sossego que entontece
este áspero vazio. Tudo despedaçado.
E as velhas sombras do quarto repõem
dedicadamente a ordem, hasteiam a
minha figura nos espelhos
– essa outra
carne que me deixa ficar horas ainda
depois de mim. Enquanto o sumo de
beatas assentava nas chávenas
e o nome dela se tornava o assunto
de toda a casa, um sopro magoado
fez uma vez e outra os corredores.
E eu, ali, caído em actos solitários,
a bicar as partes moles do mundo.

Precisava de luz. No terraço em ruínas
brinca uma chuva miúda e cantam
ainda desafinadas as distâncias. A água
enche os desenhos do vento enquanto
a claridade se põe de pé e vai
aos chutes na flor das traseiras.
Um cigarro e assim antes que desça
e beba os lábios gelados no tanque,
para seguir entre o enorme e jovial
tagarelar do que ainda mal se vê.
Nítidos pássaros de som e árvores
sussurrantes, uma intimidade que
me diz hoje tão pouco e nem já me
chama para ver isto ou aquilo.
Com um gesto mais grave guio o
nevoeiro neste longe-lento alvoroço –

amanhece, então, e eu faço um esforço,
lembro o que posso, como se apagou
para mim a luz desse corpo. Discutíamos
suavemente uns disparates, o sangue a
revolver a mesma canção, quebrando
a sua órbita contra uma distância impossível.
Bebemos tudo. Dissolvíamo-nos na bebida
para lá de qualquer possibilidade de
memória
. Devo estar para perder
mesmo o nome dela. Espero que sim.

Fomos menos que um erro, nem deu
para fazer uma ideia, escrever um
poema melhor. Encostados, fomos todas
as nossas velhas derrotas e restos
de fabulices. Escritora, já se convencera
que os poetas também escrevem.
Como explicar-lhe que não fazemos muita
questão, mas que, com maior ou menor
talento, nos misturamos, assistimos
de perto ao fulgor de um país meio
perdido, perfumado pela agonia destas
figuras pedindo a sua legenda e a luz que
os seus gestos merecem. Seguimos
impressões, vidas agudíssimas e esse rumor
de carne cega
. Contra a imponência da
História, marcamos os dias e os lugares
em que se morre mesmo, onde cada gesto
ensaia uma despedida. Apuramos, assim,
o canto seco desta terra que nos foge.
(Pátria suficiente.) E, com alguma sorte,
não nos confundem com trapezistas,
tarólogos, ilusionistas ou escritores.



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