sábado, dezembro 15, 2012

Uma ilha, mas em vez de mar, terra.


A aldeia tem uma capela, um forno comunitário, oito casas ocupadas. A aldeia não tem café, mercearia, estação de correios, junta de freguesia, paragem de camioneta. Tem, de um lado, a encosta de um monte ardido no Verão passado, um espectáculo recordado não só pelo susto mas também pela sua beleza. Tem, do outro, uma estrada íngreme e com curvas que no Inverno gela e frequentemente fica intransitável. As pessoas fazem a sua vida entre as casas e as hortas, habitantes de uma pompeia que não teve uma grande catástrofe natural.

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Na estrada, as metáforas: os frutos caindo das árvores de maduros para a berma; os caminhos subitamente cortados; e a viagem em si, metáfora milenar para a vida e para o final da vida. Mas a metáfora mais certa para a morte é a guerra: uma pessoa batalhando numa cama durante anos até que a sua respiração se confunde com um gemido.


- Susana Moreira Marques
in Agora e na hora da nossa morte, Tinta da China

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