Ofereceu-mo há dias um dos poucos mestres que me resta. Tive-o muitas vezes nas mãos na arrecadação dos meus pais, não tinha ainda idade para saber o que lhe fazer. A capa é espantosa: grosseira, absurda, fiel. O título uma chave falsa, inútil no final de contas. Mas, parecendo óbvio, lixa-nos a memória depois de termos lido o livro. Não leio nenhum romance de repente. Ou o meu de repente pode levar-me vários dias. Este é um livro terrível. "É sobre a amizade", disse-me o Mestre. Deu-me outros dois, também sobre coisas Assim, grandalhonas, furiosamente banais. Comecei por este. Pela causa Miller, um pouco também pela da amizade: causa em que me interessa cada vez menos pensar ou acreditar, mas que é um bom tema quando ainda há Personagens com Pessoas perdidas por trás. Eu praticamente só conheço Gente. Há excepções, mas sinto-as todas ainda piores do que eu. É fodido ficar para o fim, sentir que um desabafo se torna um carrossel excêntrico para garotos que montam os cavalinhos mecânicos a altarem-se e a baixarem-se num gosto por uma música birrenta, que se repete de minuto a minuto como se repetem os garotos que vêm e dão umas vinte e tal voltas antes de passarem aos póneis ou irem duma vez com as putas que os parem e não páram. Mas o livro é fortíssimo. Tem um finalão! Se nos pudéssemos dizer mais coisas, se nos pudéssemos tocar a meio da solidão nas horas em que ela trepa doida pelas paredes... "É sobre a amizade", claro. Mas não aquela do O'Neill, que vai a inaugurações. Puta que a pariu! Esta fica só mesmo para o fim, quando já tudo é uma paisagem sem forças, e o melhor vinho atingiu o estado final da sua graça. Verdadeiramente pisado, voltou para ser bebido de novo, desta vez pelo diabo: vomitado.
quinta-feira, dezembro 20, 2012
Um diabo no paraíso
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