domingo, dezembro 16, 2012

O quarto

Já nada mais serei senão um homem:
engano por engano, esse me acalma.
Entretanto visto-me, abro o gavetão,
retiro de uma sombra roupa humana.
Forros, paramentos, a igualdade
do peito das camisas, essa falha
de qualquer filosofia. Aos pés da cama o sol
e terra nos sapatos: assim é o meu quarto,
lençóis ainda quentes, um modo de trocar
de temperatura. Ou a costura exacta
de outra respiração – fios, alinhavos,
pespontos de luz numa existência escura.

- Carlos Poças Falcão
in Arte Nenhuma, Opera Omnia

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