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Nos tempos da puta da Glória, o poeta via chegar-se-lhe um dia e sussurrar "já foste". Era-lhe deixado um saco negro aos pés ou cavada à sua frente uma pequena cova: "Vê lá se cabes." De um jeito ou doutro o poeta lá cabia. Às vezes não ia sozinho. Entre mais uns refilões, tiravam-lhe o retrato, pálido, contra um muro, saudado por uma salva de tiros. Felizmente, os ditadores de hoje deixaram-se de susceptibilidades e não lhes chega já muita vergonha à cara. Estão-se bem nas tintas para o que deles se escreve ou diz, com mais ou menos rimas, por entre decassílabos heróicos ou gritos de fome, dá no mesmo. São democratas, o que no fundo os iliba de tudo. Afinal, a culpa não é deles mas de quem lá os pôs. Se o povo está mal, que se mude. Hoje o poeta escreve o que quer, e até vai à televisão e diz muito simplesmente que tem preocupações, género: sociais. Mas está, ainda assim, sujeito a uma ou outra afecção a partir do momento em que se deixa ler. Doenças de pele, sobretudo. Num tempo a que falta tesão, o que há hoje muito são uns fungos persistentes que, sob o manto do exercício da crítica, inventam o mal e depois dão-lhe cura. Os Professores Karamba da cena. Puxam de um receituário e querem que o poeta coma disto e não daquilo. É que lhe faz mal à saúde, e à saúde da poesia também! Isto são fungos com a mania da higiene. Querem que o poeta deixe de beber e fumar, ou que pelo menos não vá por aí quando escreve. O "crítico" gostava tanto de ler um poema onde pudesse pousar o copo de leitinho e a sandes de pão integral. Da poesia, como de tudo, espera-se asseio. E a pedra que põem no assunto é a tal da transcendência. Ó a pedrada que aquilo lhes dá. Mas como os putos com os charros deles e aquela rebeldia impúbere, detestam ver-se a fazer figura de parvos sozinhos. Querem companhia – fazer rodar a cena – para virem depois contar as altas trips em que se meteram. E têm que o fazer em textos teóricos, porque na prática, nos poemas, não deixam mais que gritinhos à beira do desmaio ou do vómito. E, assim, o poeta assiste às elevações fúngicas de que não se morre, é certo, mas aborrecem quase tanto como se. Em vez da língua bem deitada de fora, o bando cretino tudo o que gosta é de alinhar e coçar estrelas no céu da boca.
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