segunda-feira, dezembro 03, 2012

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A lâmpada floresce, quente de
insectos, e a aurora perpétua estira-se
sobre a mesa. O quarto move-se,
trabalha uma melodia de sombras
e tem ao centro a cama onde leste
o meu livro (e além, ainda empilhados,
os espanhóis que queria mesmo
que lesses). O lençol perdeu-te o
cheiro, a cinza perdura nos cinzeiros,
e restos de sons, flechas dobradas,
coisas rarefeitas, impronunciáveis.

Ponho o melhor roupão e um ar
de Eminência, chapéu de aba larga,
meu andar de capitão com a tosca
sinfonia do vento logo atrás
enquanto desvio a lembrança do sangue
e, de uma rua às outras, ponho Lisboa entre
parêntesis
e pulo novos meridianos.
As nuvens feridas, castelos doidos num
céu de fim de tarde onde já pastam
algumas estrelas mansas. Pátios largos
onde o eco apanha a própria voz
e jardins acidentais, meio selvagens,
que cicatrizam o abandono. A arte
de afundar memórias, sapatos largados
por ali, calçando a história do vento.

A chuva balança nas traves e ossos
que seguram o inverno. Tectos baixos
que guardam seres arcaicos arrancados
a um sono etílico, esse suspiro velho
de algum marinheiro bebendo
pelas sombras, rude e mágico, a voz
entorpecida desenhando outro mundo
nas línguas distantes em que reza
e se peida, antes de adormecer nas
próprias mãos.

Agora frequentas os tempos infinitos
nestes lugares infectos onde uma luz
assustada lê frágeis indicações e recados nas
paredes: equações alucinadas, um índice
exemplar em que molhas o dedo.
Alcoóis e miragens, o ciúme, canções
aluindo no fundo do fundo,
onde bailam ruínas de silêncio. Expostas
as partes baixas da alma, flores entre
os dentes, os olhos fixos, abertos
até ao fim. Um pouco de febre,
uma réstia de paixão, e os insectos,
de volta, ébrios de tanta carne doce.

Devo estar bêbedo. Sinto-me feminino
e distante. Este soluço encantado ecoa
enquanto os meus passos acordam
a água e os espelhos. Hóspede
de rastros milenários, oiço aquele sino
que bate apenas para quem vagueia
perdido. A sombra, ferida, toma
emprestadas formas mais fáceis,
esquece-se de quem era, sai em falso,
mas cada gesto meu berra com ela
e então lá volta fodida com isto.
Para ela é difícil entender: tanta luz
para brincar, que caralho leva este gajo
sempre a apalpar a escuridão?

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