sábado, dezembro 08, 2012

Insónia

para o Luís Henriques e o Luis Manuel Gaspar

A princesa entrou a ter apetites de solidão.

Irene Lisboa

São agora cinco da manhã, em Lisboa, e foi um primeiro dia de Agosto inusitadamente chuvoso. Acontece. Como acontece não dormir, enquanto os pardais de Bach ou os galos de Tom Waits me alumiam as veias cansadas.
Por esta mesma hora, na Calçada dos Barbadinhos, alguém desenha, sem arestas, o rosto de Deus, numa febril lucidez. Ou desenvolve, nas Escolas Gerais, uma ampla e rediviva arte tipográfica, que trará ao mundo outros mundos. Temos, enfim, a certeza de que os cegos vêem muito melhor do que nós.

*

Eu, sem ti nem poemas, esclareço inutilmente a dor, este pão que preferia nunca ter conhecido. Já não sei como injuriar a luz da manhã, demasiado próxima. Morro, princesa, muito devagar. Enquanto os amigos desenham crepúsculos tardios, mas necessários.

- Manuel de Freitas
in Cólofon, Fahrenheit 451

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