Para a Clara
Uma claridade quase musical vê passar
os últimos eléctricos entre a plateia do
circo fantasma às portas de um hospício.
Às janelas assomam como sentinelas
meninos senis de pijama e espingardas
de pau ao ombro. Têm lá em cima
o inferno amarrado. Outros descem
e vasculham laboriosamente os cantos
do jardim onde perderam a voz.
Os olhos grandes demais, tão vagos,
de uma água suja que rega os canteiros
e vai afinando o coro de flores canoras.
Em assombroso vagar, o velho deus
do banco tem estações só dele, comanda
a luz em pormenores feéricos no centro
da praceta, e segreda lendas à nossa
imaginação entre longos e lentos
gestos em parábola, cachimbando
passaritos fragrantes contra o ar da manhã.
Mas já não invento cidades (lisboetas
ou não) sem chegar a um desses
reinos detidos na pedra. Algumas
mãos juntas e, dentro, dois dias
de chuva e uma gota de mel. Mergulho
nelas a ponta dos dedos e benzo-me.
Cada um ordena para si o que mais
fundo lhe toca e é, por isso, real.
Observo-me em espelhos que nascem de
outro tremor. O riso do tanque tem
os miúdos debruçados, cuspindo o sangue
das amoras em agudíssimos reflexos.
Vejo-os crescer e balançar de dor,
vejo umas figuras suaves que, atrás
de uma igreja, injectam leites vindouros
nos braços. O doce choque que nos leva
de uma idade insegura a uma eternidade
fulminante. (Antes arder num paraíso
infecto do que cozer lentamente
num inferno de labirintos sem fim.)
Eu e um vento manco deambulamos,
humilhados por todas as montras,
umas ruas à frente da noite e do zumbido
luminoso que ateia as distâncias.
Já todo desabotoado volto aos lugares
onde tenho os meus primos todos
até ao quinto grau reunidos à beira de
um poço. Copos em mãos de brinquedo,
batendo no peito comum das mesas,
um ritmo lesado como a respiração
sulfúrea de cada rosto mergulhando
em pequenas mágoas. Só estamos nós
no fígado desta época medonha,
e o piano, despenhado a um canto,
como um cometa que, a cada nota,
torna mais funda a sua cratera.
Tudo canta terrivelmente. As vozes
brilham confusas num só uivo
enquanto o luar nos altera o sangue.
A atmosfera irreal destas noites de vidro
e dos reflexos sem saída, cercados
no eixo desmanchado das horas sem dias
e meses sem anos. Agarrados às nossas
luas de bolso, tomamos notas sinistras,
perdidos no meio de filósofos e coveiros
– profundos, mas um nadinha maçadores.
Reduzimo-nos a uma vigilância felina
até que nos surja rente aos lábios
esse pássaro de espanto. Um verso,
um acorde vivo, a ideia de um país que
nos quisesse tanto como se sonham ainda
os amantes já depois de morta a paixão.
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